Brasil
MP-GO acusa coronel ligado a Pablo Marçal por matar delator do PCC
O Ministério Público de Goiás, através do Grupo de Atuação Especial no Controle Externo da Atividade Policial, na Segurança Pública e no Sistema Prisional (Gaesp), apresentou denúncia na terça-feira, dia 28, contra o tenente-coronel Edson Luís Souza Melo e o major Renyson Castanheira Silva, ambos da Polícia Militar de Goiás, pela morte do piloto de helicóptero e delator do Primeiro Comando da Capital (PCC) Felipe Ramos Morais, além dos mecânicos de aeronaves Nathan Moreira Cavalcante e Paulo Ricardo Pereira Bueno.
O Estadão tentou contato com o tenente-coronel e o major, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem. A PM de Goiás declarou que, após ser notificada, “tomará todas as medidas necessárias para cumprir as determinações da Justiça”.
Edson Luís Souza Melo foi assessor de segurança do coach Pablo Marçal durante a campanha do influenciador para a Prefeitura de São Paulo em 2024, na qual Marçal alcançou o terceiro lugar. A assessoria de Pablo Marçal também foi contatada, sem resposta até o momento. Este espaço permanece aberto para manifestações.
O crime ocorreu em 17 de fevereiro de 2023, nas proximidades da BR-060, na divisa entre Goiânia e Abadia de Goiás. Felipe Ramos Morais era a testemunha principal da Polícia Federal na investigação que resultou na Operação Rei do Crime, deflagrada em 2020, que investigou lavagem de dinheiro da liderança do PCC em imóveis e postos de gasolina em São Paulo, bloqueando bens estimados em R$ 800 milhões ligados à família de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.
Felipe Ramos Morais foi o principal piloto da liderança do PCC e responsável por levar traficantes como Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, a uma emboscada que resultou em suas execuções em fevereiro de 2018, em Aquiraz, região da Grande Fortaleza.
Esse assassinato desencadeou uma onda de violência dentro da facção. Uma semana depois, o executor da emboscada, o traficante Wagner Ferreira da Silva, conhecido como Cabelo Duro, foi assassinado no Tatuapé, zona leste de São Paulo, área usada como base pelo PCC.
A ordem para matar Gegê e Paca partiu de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, parceiro do Marcola no tráfico internacional, preso em Moçambique e extraditado ao Brasil pela DEA.
A delação de Felipe Ramos Morais continha 36 anexos e aguardava homologação na Justiça Federal de São Paulo quando ele foi assassinado em Goiás. Após a sua morte, a Justiça anulou a delação e as operações subsequentes, desarticulando um banco digital criado pela facção para lavagem de dinheiro e ocultação de bens.
Na data do assassinato, os policiais do Comando de Operações de Divisas (COD/PM/GO) afirmaram que as vítimas reagiram à prisão e que cocaína foi encontrada com elas.
Após três anos de investigação, o Ministério Público concluiu que os PMs foram até uma chácara para verificar denúncia anônima sobre uso do local para tráfico de drogas com helicópteros. Lá, encontraram Felipe, Nathan e Paulo próximos a três aeronaves e um veículo Volkswagen Amarok.
De acordo com a denúncia, os policiais começaram a disparar contra as vítimas pelas costas, sem qualquer agressão prévia, resultando na morte imediata dos três.
O tenente-coronel Melo usou uma pistola Sig Sauer 9mm, efetuando 12 disparos, enquanto o major usou uma carabina XM15 calibre 5.56, disparando 3 vezes. Perícias contradizem a versão de confronto frontal apresentada pelos denunciados.
Para os sete promotores que assinam a denúncia, não há dúvidas quanto à execução: os laudos indicam que as vítimas foram atingidas pelas costas, algumas com tiros em trajetória ascendente, indicando que estavam caídas e rendidas no momento dos disparos, sem possibilidade de defesa.
Testemunhas reforçam a acusação, afirmando que, depois de matar as vítimas, os policiais alteraram a cena do crime para tentar justificar os homicídios. Os estojos recolhidos e a posição das armas indicam manipulação da cena.
Além disso, não foram encontrados vestígios de disparos por parte das vítimas nem resíduos de pólvora. O exame do georreferenciamento das viaturas revelou atraso injustificado no acionamento do SAMU, caracterizando omissão de socorro.
Os promotores concluíram que ficou provada a autoria e circunstância agravante do crime, destacando a vulnerabilidade absoluta das vítimas, sem possibilidade de defesa.
O Ministério Público pediu à Justiça a suspensão dos policiais de suas funções públicas e a proibição do porte de armas. Atualmente, o tenente-coronel atua na Assistência de Gestão Estratégica da Polícia Militar de Goiás e o major no Batalhão Rural da PM-GO.
O caso ocorreu quase dois anos antes do assassinato de outro delator do PCC, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach, no Aeroporto de Guarulhos, ambos ligados a investigações sobre tráfico internacional de drogas na zona leste de São Paulo.
Posição da Polícia Militar de Goiás
A Polícia Militar de Goiás declarou que ainda não foi oficialmente notificada da aceitação da denúncia.
Após a notificação oficial, a corporação se compromete a executar imediatamente todas as medidas necessárias para atender às determinações judiciais, reafirmando seu compromisso com a legalidade e a colaboração institucional.

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