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El Salvador como modelo de segurança atraindo políticos brasileiros
“O Brasil é bastante afortunado e não precisa criar nada novo. Basta adotar o que já comprovou eficácia”, afirmou Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ao compartilhar uma foto diante das celas lotadas do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), em El Salvador.
Em novembro, o ex-deputado voltou a visitar o presídio simbólico da luta contra as gangues liderada pelo presidente salvadorenho, Nayib Bukele — dessa vez acompanhado do irmão Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essas missões oficiais consolidaram o país como um destino frequente para políticos da direita brasileira.
Nos últimos 18 meses, o discurso que defende a “bukelização” do Brasil tem ganhado força em resposta à maior preocupação dos brasileiros: a segurança pública. Mais de dez políticos de direita visitaram El Salvador e outros referem-se ao país como modelo por suas leis mais rigorosas e penalidades severas, contrastando com o que consideram a “flexibilidade” da esquerda.
Desde 2019 no comando, Bukele conquistou ampla aprovação e controle quase total ao implementar em 2022 um estado de exceção que autorizou prisões sem ordem judicial, resultando na detenção de 1,5% da população — mais de 90 mil indivíduos.
Essa política derrotou as gangues Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18 e reduziu a taxa de homicídios de mais de 100 para menos de 2 por 100 mil habitantes. Por outro lado, gerou denúncias de prisões arbitrárias, torturas, execuções de detentos e perseguição a ativistas e jornalistas.
Adversários apontam que medidas semelhantes violariam a Constituição brasileira e seriam ineficazes num país de dimensões muito maiores, com facções transnacionais mais complexas e armadas — replicar a taxa de encarceramento significaria triplicar o número de presos no Brasil, chegando a 3,2 milhões. Também criticam o que chamam de “turismo penitenciário” de alguns parlamentares, como Flávio Bolsonaro, que elogiou o modelo após a visita.
“A legislação criou um processo penal especial, uma justiça ágil e quase sem recursos para essas organizações criminosas. Houve críticas de defensores dos direitos humanos, mas o povo apoiou e o governo avançou. Importante destacar que o Judiciário não interferiu”, disse o pré-candidato a presidente. “O Brasil é maior, de fato, mas temos mais recursos, policiais e militares.”
Eduardo, Flávio Bolsonaro e Paulo Bilynskyj em visita ao Cecot, que tem atraído a direita brasileira | Foto: Redes Sociais/Reprodução
Presença da direita e ausência de Bukele
Seguindo os passos dos Bolsonaro, o deputado Paulo Bilynskyj (PL) defende o regime prisional rigoroso do Cecot, onde os presos ficam sem colchão e visitas, com penas que ultrapassam mil anos. O deputado Nikolas Ferreira (PL) também visitou o presídio e ironizou dizendo que lá os direitos humanos “funcionam” sem privilégios.
Nikolas criticou a gestão brasileira da segurança em discurso no 30° Fórum de Inteligência e Segurança, que também contou com os deputados Padovani (União-PR), Delegado Marcelo Freitas (União-MG), Coronel Assis (União-MT) e Delegado Fabio Costa (PP-AL). Bukele, entretanto, não participou das missões oficiais; parlamentares posaram com a irmã do presidente, deputada Fabiola Bukele, e outras autoridades de alto nível.
A estratégia “bukelizada” inspirou operações em favelas fluminenses como Alemão e Penha, em outubro. O governador Cláudio Castro (PL) afirmou estar em guerra contra “narcoterroristas”. O relator do Projeto Antifacção na Câmara, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), propôs equiparar as facções ao terrorismo, embora tenha recuado sob pressão e o texto será analisado apenas em 2026. Nesse cenário, o líder da oposição na Casa na época, deputado Luciano Zucco (PL), sugeriu uma viagem a El Salvador.
“Queríamos entender o modelo de combate de Bukele. Gostem dele ou não, salvou milhares de vidas. A viagem não ocorreu por agenda, mas nada impede aprendermos com políticas eficazes. Ignorar essas experiências é condenar o Brasil a repetir erros”, afirmou.
Governadores que planejam candidaturas presidenciais também se interessam pelo tema. Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, apoia operações e mudanças radicais na legislação, citando El Salvador como exemplo. Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, viajou em maio para encontros oficiais no país e defende coragem e humildade para adotar o que funciona lá, propondo a construção de presídio parecido na Amazônia.
Após grande operação policial, Cláudio Castro cogitou visitar El Salvador e encontrar Bukele, mas desistiu conforme orientação do governo Lula para facilitar futura aproximação com o presidente petista, inimigo do salvadorenho, segundo coluna de Malu Gaspar no O Globo. Enquanto a direita se reorganiza em torno do tema, o presidente Lula reage com propostas como a PEC da Segurança Pública.
Análise e riscos do modelo Bukele
O cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, avalia que a imagem de Bukele é atualmente vaga e quase caricata.
Ele destaca os riscos do modelo “profundamente autoritário”. Casarões cita a campanha de Pablo Marçal (PRTB) à prefeitura de São Paulo, que usou a estética bukeliana e viajou a El Salvador em setembro de 2024, porém sem foto oficial com o presidente, além do discurso de políticos como Renan Santos, pré-candidato pelo Missão que apoia o encarceramento em massa:
“Mesmo sem receber os políticos, Bukele segue referência. À medida que a eleição se aproxima, haverá disputa para ser o primeiro a posar com ele. Falar indiretamente sobre El Salvador é uma coisa, aparecer oficialmente com Bukele é outra.”
A professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, pondera que Bukele oferece um modelo e tende a ser usado nas campanhas presidenciais como um tipo de consultor para o que poderia ser implementado aqui. O desafio será convencer aqueles que ainda não adotaram essa visão:
“Esse modelo pode enfraquecer o discurso especialmente entre moradores das periferias. Será um dilema para a direita, que precisa expandir seu espectro atual, já favorável a esse estilo.”


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