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Grupos denunciam manipulação eleitoral nos EUA que pode beneficiar Trump
Grupos que representam a comunidade negra e os direitos civis dos Estados Unidos (EUA) alertam sobre uma ameaça à democracia nacional após uma decisão da Suprema Corte, composta majoritariamente por conservadores, que anulou o mapa eleitoral para o Congresso do estado da Louisiana.
Derrick Johnson, presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP) dos EUA, declarou que a democracia americana “clama por ajuda”.
Johnson afirmou: “Esta decisão é um golpe brutal contra o que resta da Lei dos Direitos de Voto e representa uma permissão para políticos corruptos manipular o sistema e silenciar comunidades inteiras. A Suprema Corte traiu os eleitores negros, traiu a América e comprometeu nossa democracia”.
Por seis votos contra três, o Supremo decidiu modificar os efeitos da Lei dos Direitos de Voto ao entender que a divisão dos distritos eleitorais na Louisiana foi baseada de maneira demasiada em critérios raciais. Como consequência, dois distritos com maioria negra precisam ser revisados, o que pode alterar a composição partidária do estado no parlamento.
Após essa decisão, o governador da Louisiana, Jeff Landry, cancelou as eleições primárias de 16 de maio para permitir a alteração dos mapas eleitorais antes da votação.
Especialistas acreditam que essa mudança pode favorecer os republicanos e o presidente Donald Trump, que vem enfrentando queda de popularidade devido a desdobramentos políticos e econômicos relacionados à guerra contra o Irã.
Essa alteração abre espaço para que estados reformulem os mapas eleitorais dos distritos majoritariamente negros e latinos, tradicionalmente mais alinhados com os democratas, justificando-se pelo argumento de que esses mapas foram desenhados com base em critérios raciais.
Reverendo Al Sharpton, presidente da National Action Network, uma das principais organizações de direitos civis do país, declarou que a decisão da Suprema Corte “desfez o legado de Martin Luther King”, que lutou contra leis segregacionistas que restringiam o direito ao voto da população negra norte-americana.
Sharpton afirmou em comunicado: “Esta decisão é um golpe fatal no movimento pelos direitos de voto. O Dr. King não marchou pela Ponte Edmund Pettus para que seis juízes em Washington pudessem desfazer silenciosamente conquistas alcançadas com muita luta. Essa corte vem enfraquecendo a Lei dos Direitos de Voto há mais de dez anos, e hoje o golpe foi ainda mais cruel”.
Donald Trump comemorou publicamente a decisão da Suprema Corte, declarando: “Este é o tipo de decisão de que eu gosto”. Nas redes sociais, ele agradeceu ao governador Jeff Landry por levar a questão até a Suprema Corte e por agir rapidamente para corrigir o que chamou de inconstitucionalidade nos mapas eleitorais da Louisiana.
Além disso, Trump incentivou o governador do Tennessee a alterar os distritos eleitorais para favorecer os republicanos, ressaltando que isso poderia garantir mais cadeiras ao partido e ajudar a proteger o país das políticas dos democratas da esquerda radical.
Do outro lado, líderes democratas prometem resistir para impedir a perda de representatividade, o que poderia aprofundar a manipulação eleitoral conhecida como gerrymandering, com impacto potencial nas eleições legislativas de meio de mandato previstas para novembro.
Essa prática consiste em alterar os limites dos distritos eleitorais para favorecer um partido específico e vem se intensificando desde que o Texas mudou seus distritos a favor dos republicanos. Outros estados, como Califórnia e Missouri, também seguiram esse caminho. Recentemente, a Flórida alterou seus distritos para favorecer esse partido.
Segundo o New York Times, em um estado onde a vice-presidente Kamala Harris (candidata presidencial democrata) obteve 43% dos votos há dois anos, os republicanos podem controlar 86% das cadeiras da Câmara após as mudanças nos distritos da Flórida.
A Flórida é o oitavo estado a modificar os mapas eleitorais para as eleições parlamentares de 2026. As mudanças nos estados do Texas, Missouri, Carolina do Norte, Ohio e Flórida devem favorecer os republicanos, enquanto alterações na Califórnia, Utah e Virgínia tendem a beneficiar os democratas.
A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), uma entidade importante na defesa dos direitos civis nos EUA, classificou a decisão do Supremo como “vergonhosa” e destacou que a Lei dos Direitos de Voto é a “base da nossa democracia multirracial”.
Alanah Odoms, diretora da ACLU na Louisiana, ressaltou: “Os eleitores devem escolher seus representantes no governo — e não o contrário. Mas políticos contrários ao direito ao voto em todo o país interpretarão essa decisão como permissão para implementar novas restrições e tentar reprimir nossos direitos eleitorais”.
Entenda a manipulação dos distritos eleitorais
Diferentemente do Brasil, onde as eleições para a Câmara dos Deputados ocorrem pelo modelo proporcional, nos Estados Unidos o sistema é distrital. Para ser eleito, um candidato deve obter a maioria dos votos em um distrito específico, sem que seus votos sejam contabilizados em outros distritos do mesmo estado.
Nesse sistema, a minoria de eleitores em um distrito não consegue eleger representantes, nem seus votos são considerados nos outros distritos.
As tentativas de manipular as eleições por meio do redesenho dos limites dos distritos buscam criar áreas onde a maioria dos eleitores favoreça uma visão política específica.
Por exemplo, ao traçar a divisão de um distrito em uma área de maioria negra e urbana, o mapa pode ser redesenhado para dividir essa população entre dois distritos distintos, fazendo com que os negros se tornem minoria nesses distritos diante de populações brancas e rurais, mesmo que essas áreas sejam distantes entre si.

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