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Segunda chance: operário nepalês sobrevive preso em túnel inundado
Durante dez dias, o trabalhador de hidrelétrica nepalês Sanjay Sah permaneceu vivo na escuridão de um túnel cheio de água, consumindo água suja e perdendo totalmente a noção do tempo enquanto pedia por socorro.
Quando uma equipe de resgate finalmente o retirou com vida em 4 de setembro, sua primeira pergunta mostrou o quão confuso ele estava.
“A primeira coisa que perguntei foi quantos dias tinham passado”, contou Sah, de 30 anos, à AFP em entrevista ao voltar para casa, no distrito de Saptari, neste domingo (13).
“Me disseram que foram dez dias. Achei que fosse muito menos”, revelou.
Sah é um dos muitos trabalhadores da construção hidrelétrica afetados pelo enorme deslizamento de terra causado pelo rompimento de uma geleira na fronteira entre China e Nepal em 26 de agosto.
Sua impressionante sobrevivência trouxe um pouco de esperança após uma tragédia que causou ao menos 1.429 mortes e deixou mais de 5.640 pessoas desaparecidas, a maioria no Nepal.
Com lágrimas nos olhos enquanto familiares e amigos o recepcionavam com guirlandas e bolo, Sah lembrou como tudo aconteceu rapidamente.
“Eu estava em serviço quando, de repente, uma enxurrada inimaginável nos atingiu, com ondas gigantescas, parecendo um tsunami”, relatou.
Ele explicou que os trabalhadores receberam avisos sobre a aproximação de uma enchente, mas não tiveram tempo suficiente para fugir.
“Fomos alertados para ficar atentos, pois uma inundação muito grande estava se aproximando. Tentamos nos manter vigilantes”, disse.
“Mas a água chegou rápido demais. Paramos tudo e tentamos ajudar nossos colegas a escapar”, acrescentou.
Em poucos minutos, o túnel foi completamente tomado pela água.
As autoridades atribuíram a tragédia, em parte, aos efeitos severos do aumento das temperaturas globais nas montanhas do Himalaia nepalês.
Força espiritual
Separado dos demais trabalhadores, Sah ficou preso, sem saber se seria encontrado. Sua fé hindu o ajudou a suportar os dias dentro do túnel, na escuridão e isolamento.
“Sobrevivi graças à minha fé e confiança profunda”, contou. “Recitei o Maha Mantra, e a energia divina que senti me ajudou a manter o medo e o desespero afastados, permitindo que eu resistisse.”
Sem água potável, ele sobreviveu bebendo a água disponível, mesmo suja.
“A água tinha lama, mas era tudo o que eu tinha”, recordou.
A escuridão e o isolamento poderiam tê-lo vencido, mas Sah não esteve completamente só. Outro trabalhador, Kabir Maharjan, de 45 anos, também estava preso próximo a ele.
“Estávamos distantes, mas conseguíamos conversar”, e ouvir outra voz foi uma tábua de salvação para Sah.
Por fim, após dias de escavações e esforços intensos de resgate, as equipes conseguiram chegar até os dois homens e tirá-los com vida.
A esposa de Sah, Lakshmi Kumari Sah, afirmou que nunca perdeu a esperança de reencontrá-lo.
“Deus nos ajudou. Nunca deixamos de ter fé”, disse, segurando a filha nos braços.
Sah, que ficou vários dias se recuperando em um hospital de Katmandu, admitiu sentir emoções contraditórias.
“Estou feliz, mas também triste”, comentou. “Ganhei uma nova chance; consegui sobreviver. Mas muitos colegas ficaram lá.”
Um trabalhador chinês foi resgatado em 5 de setembro, um dia após Sah, porém nenhum outro sinal de vida surgiu desde então.
“Espero que o governo continue as buscas. Pode ainda haver alguém vivo”, concluiu. “Ou, ao menos, que encontrem os corpos dos colegas que não sobreviveram e os entreguem às famílias.”

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