Economia
Como a inteligência artificial está mudando as empresas
O uso da inteligência artificial (IA) vem crescendo rapidamente, provocando mudanças significativas no mercado de trabalho. Com sua presença cada vez maior nas empresas e na rotina profissional, a tecnologia tem transformado a maneira como as tarefas são executadas, as profissões estruturadas e as carreiras desenvolvidas.
Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) indicam a amplitude desse impacto: cerca de 29,8 milhões de brasileiros, que correspondem a 30% da população economicamente ativa, já estão expostos de alguma forma à inteligência artificial generativa (IA Gen). Essa é uma vertente da IA focada em criar novos conteúdos como textos, imagens, áudios, vídeos e códigos, baseada na análise de grandes volumes de dados.
Desemprego
Esse cenário já é visível nas grandes empresas de tecnologia, que têm promovido cortes de pessoal e reestruturações em virtude do avanço da IA. A Amazon, uma das maiores do setor, anunciou em janeiro deste ano o corte de 16 mil cargos corporativos, encerrando um plano iniciado em 2025 para eliminar cerca de 30 mil funções, visando reduzir níveis hierárquicos e tornar a operação mais eficiente com a ajuda da IA.
Outras gigantes da tecnologia seguem o mesmo caminho. A Oracle iniciou demissões ligadas a uma reestruturação interna e ao aumento dos investimentos em inteligência artificial e computação em nuvem. A Meta Platforms, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, comunicou a demissão de aproximadamente 10% de seu quadro de funcionários, além de suspender diversas vagas abertas, em meio à competição global pela liderança no desenvolvimento dessas tecnologias.
Estratégias Empresariais
Esses movimentos apontam para uma mudança estrutural na organização das equipes, com menos níveis intermediários, maior automação e uma demanda crescente por produtividade. No entanto, essas transformações não são necessariamente negativas, pois muitas empresas as adotam como estratégia para melhorar a eficiência e ampliar os resultados. É o caso da startup pernambucana Mais Milhas, que incorporou a IA em seus processos.
Luiz Felipe Soares, CEO da empresa, explicou que a adoção da tecnologia surgiu de uma nova visão sobre o papel da IA nos negócios.
“Antes tínhamos um site convencional, como muitos outros. Mas tudo mudou quando viajei à China e notei o avanço tecnológico e a integração que eles já praticam”, afirmou.
Segundo o executivo, atualmente vivemos uma nova fase no uso da IA nas empresas.
“Houve inicialmente uma onda de experimentação com ferramentas para criar textos, músicas e aperfeiçoar tarefas. Agora, uma nova etapa começou, marcada pela reestruturação das empresas com base na IA”, analisou.
Com essa visão, a Mais Milhas iniciou uma reformulação interna focada na automação de processos e reorganização das operações.
“Passamos a automatizar todas as rotinas, e o retorno foi rápido. De um mês para o outro, nosso faturamento cresceu cerca de 30%.”
O avanço também se refletiu no lançamento de novos produtos e soluções. Em pouco tempo, a empresa expandiu sua estrutura digital e criou múltiplas plataformas para diferentes públicos.
“Foram mais de 150 mil linhas de código desenvolvidas. Em um mês, construímos um conjunto de plataformas que levaria um ano para uma equipe de quatro a seis desenvolvedores fazerem trabalhando em tempo integral”, explicou.
Luiz Felipe Soares, CEO da Mais Milhas
Quadro de Funcionários
Apesar do crescimento do uso da tecnologia, Luiz Felipe destaca que não houve redução no número de colaboradores. A principal transformação acometeu o modo de trabalhar das equipes, principalmente na área comercial.
“A IA assumiu tarefas operacionais que antes consumiam o time. Hoje, ela analisa dados, aprova processos automaticamente e até realiza contato com clientes. Dessa forma, os profissionais podem focar no que realmente importa: concretizar negócios e vender”, ressaltou.
Para o CEO, a inteligência artificial não substitui o trabalho humano, mas redefine seu papel nas empresas.
“Ela veio para potencializar o trabalho. Proporciona mais suporte, informação e capacidade de execução. O profissional continua fundamental, mas precisa saber utilizar essas ferramentas a seu favor”, concluiu.
Impactos no Mercado de Trabalho
Cerca de 20% dos trabalhadores estão em posições mais vulneráveis, com alto risco de serem substituídos pela tecnologia, conforme dados do FGV IBRE. Outro grupo, de tamanho semelhante, pode lucrar diretamente com esse avanço, utilizando a IA como ferramenta para aumentar produtividade e alcançar melhor desempenho e, potencialmente, maior renda.
Para a mentora e consultora empresarial Aline Portela, o progresso da IA tem acelerado a transformação das funções profissionais, sobretudo nas atividades mais operacionais.
“Automatizar processos com inteligência artificial significa otimizar o tempo para que o profissional possa se concentrar em sua especialidade, naquilo que a tecnologia não substitui”, afirmou.
Segundo Aline, o mercado hoje valoriza profissionais que combinam competências técnicas com habilidades interpessoais.
“Atualmente, buscamse pessoas que sabem se comunicar, estabelecer relacionamentos e se posicionar de forma estratégica. Conhecimento técnico não basta, é preciso mostrar valor e criar conexão”, destacou.
Desenvolvimento de Habilidades
Para os jovens ingressantes no mercado, a consultora ressalta que as habilidades comportamentais tornaram-se ainda mais importantes diante da automação crescente.
“A universidade capacita tecnicamente, mas hoje é necessário desenvolver competências comportamentais como comunicação, liderança e autogestão. Em meio a tanta informação e estímulos, gerir o próprio tempo e emoções virou diferencial”, disse.
Aline Portela, mentora e consultora empresarial
Novas Oportunidades
Aline destaca que, embora a automação modifique o mercado, a inteligência artificial não elimina todas as oportunidades de emprego.
“Enquanto algumas funções desaparecem, outras estão surgindo. Profissões ligadas ao marketing digital, produção de conteúdo e tecnologia aparecem para suprir novas demandas desse mercado dinâmico”, afirmou.
Para profissionais que precisam se reinventar, a recomendação é buscar orientação e qualificação.
“Há inúmeras possibilidades hoje, o que pode gerar insegurança. O apoio de mentores, consultores ou especialistas pode ajudar a identificar competências, abrir novas oportunidades e guiar a transição de carreira”, concluiu.

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