Brasil
Operação Lívia fecha rede que levava jovens ao suicídio online
O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) divulgou nesta terça-feira (4) os resultados da Operação Lívia, realizada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com suporte técnico do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp/MJSP). A ação teve como foco investigar um grupo criminoso que atraía crianças e adolescentes para comunidades virtuais, submetendo-os à pressão psicológica e incentivando práticas de violência extrema contra animais (especialmente gatos), automutilação e até o suicídio.
Essa investigação começou após o suicídio ao vivo de uma jovem de 13 anos chamada Lívia, ocorrido em 22 de julho. A transmissão aconteceu num grupo da rede social Discord, durando cerca de 45 minutos. Antes do trágico ato em sua residência em Naviraí, a adolescente foi coagida pelos criminosos durante a live a tentar maltratar um gato, sem sucesso.
Importância da vigilância dos responsáveis
Durante coletiva em Brasília, o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, reforçou que combater crimes virtuais contra crianças e adolescentes demanda atenção e prevenção por parte dos pais e da sociedade em geral.
“É fundamental que os cuidadores redobrem a atenção com seus filhos no acesso a conteúdos online, considerando a gravidade dos casos apresentados.”
Atuação em vários estados
Além de Mato Grosso do Sul, a operação cumpriu mandados em Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro, com a colaboração das polícias civis locais. Foram detidos cinco adolescentes entre 13 e 17 anos e um jovem de 18 anos, todos usuários simultâneos do Telegram.
O líder do grupo foi apreendido no Rio de Janeiro e tem 14 anos. Outro envolvido é um estudante seminarista em Pernambuco. Durante as investigações, descobriu-se que o grupo criou uma conta Pix em nome da vítima para financiar a automutilação.
Material apreendido será analisado
Todo o conteúdo recolhido será examinado para identificar outros participantes e entender melhor a dinâmica da organização criminosa na internet.
Falhas das plataformas digitais
Victor Fernandes, secretário Nacional de Direitos Digitais do MJSP, ressaltou obrigações não cumpridas pelo Discord e Telegram conforme o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) e outras legislações. O Discord, por exemplo, não interrompeu a transmissão ao vivo nem comunicou as autoridades imediatamente.
“Pelo ECA Digital, essas plataformas deveriam retirar os conteúdos e informar as autoridades para prevenir danos maiores, o que não ocorreu”, alertou Fernandes.
Também há suspeitas de falhas na verificação da idade dos usuários na rede social, permitindo que crianças e adolescentes acessassem transmissões com conteúdo prejudicial sem restrição.
O Ministério prepara ainda uma solicitação à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para que investigue os aplicativos envolvidos no caso.
Prevenção e alerta a outras famílias
Alessandro Barreto, delegado de Polícia Civil do Piauí, compartilhou que durante as ações policiais conseguiram evitar que outra jovem tirasse a própria vida numa transmissão programada. “Estamos identificando outras possíveis vítimas para avisar seus responsáveis e garantir que fiquem atentos.”

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