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Ligação entre ditadura brasileira e serviço secreto britânico revelada por arquivos militares

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Documentos do coronel do Exército Cyro Etchegoyen, datados dos anos 1970, indicam uma cooperação entre o Reino Unido e o regime ditatorial no Brasil. Conforme os registros, Etchegoyen e outros oficiais, como Milton Machado Martins, Moacyr Coelho e Milton Masselli Duarte, participaram de um treinamento no Reino Unido em dezembro de 1970.

Nas anotações, os militares aprendiam com membros do MI5, a agência de inteligência britânica, estratégias para montar um “centro de interrogatório isolado”, onde presos políticos seriam mantidos em silêncio total. Pouco tempo depois dessa experiência, Etchegoyen criou a chamada “Casa da Morte” – um local clandestino de detenção, tortura, assassinatos e desaparecimento de opositores da ditadura, situado no morro Caxambu, em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro.

A ‘Casa da Morte’ foi instaurada durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, época conhecida pela brutalidade do regime militar. Esse centro sofreu uso extensivo para práticas violentas e pode ter sido cenário da morte de pelo menos 22 presos políticos.

O historiador João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor do livro “Segredo de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)”, destaca que, embora já se soubesse da colaboração britânica, os documentos agora encontrados detalham exatamente como ocorreu essa aliança.

Agentes do MI5 instruíram os militares brasileiros na implementação das “Cinco Técnicas”, métodos de tortura psicológica e física que foram aplicados posteriormente contra presos políticos. Entre as práticas estavam:

  • Colocar um capuz rapidamente no detido;
  • Fazer o prisioneiro manter-se em ponta dos pés por longos períodos;
  • Fornecer alimentação inadequada e em horários irregulares;
  • Manipular a iluminação, alternando entre claridade intensa e escuridão;
  • Expor o preso a ruídos constantes, como barulho de gás vazando;
  • Uso da “geladeira”, confinando pessoas em ambientes com ar-condicionado em temperatura muito baixa.

A única sobrevivente conhecida da ‘Casa da Morte’, a ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), forneceu relatos sobre a execução de sete pessoas oficialmente reconhecidas como desaparecidas políticas. Ela também revelou detalhes sobre outros quatro opositores assassinados. Inês faleceu em 2015, aos 72 anos.

Os arquivos também expõem segredos sombrios, como o caso da joalheira Marilene dos Santos Mello, sequestrada e violentada por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE) em 1969. Ela morava na Tijuca e seu imóvel servia como base para militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) após treinamentos em Cuba.

Além dessas revelações, documentos indicam relatos de furtos cometidos por militares durante operações, incluindo itens desde canetas até automóveis.

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