Brasil
Brasil enfrenta risco crescente de perda do solo e falta de água
Cerca de 39 milhões de pessoas no Brasil vivem em áreas onde a degradação do solo, conhecida como desertificação, ameaça o abastecimento de água e a produção de alimentos. Essa situação afeta diretamente comunidades diversas, incluindo sertanejos, agricultores, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros.
Embora o Brasil não possua desertos típicos como o Atacama, no Chile, ou o Saara, no norte da África, o processo de desertificação refere-se à deterioração ambiental que torna o solo incapaz de reter água e sustentar a vida, resultado tanto das ações humanas, como o desmatamento e práticas agrícolas inadequadas, quanto de mudanças climáticas.
Atualmente, cerca de 18% do território nacional está vulnerável a esse processo, conforme dados recentes da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
O avanço da desertificação concentra-se especialmente em nove estados do Nordeste, estendendo-se também a partes do Norte de Minas Gerais, Espírito Santo, Nordeste do Rio de Janeiro e Noroeste do Mato Grosso do Sul, com os climas subúmido seco, semiárido e árido presentes nessas regiões. Em 2023, foi identificada a primeira área com clima árido no Brasil, abrangendo uma região de seis mil km² entre Pernambuco e Bahia, segundo levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O papel da Caatinga
Entre os biomas brasileiros, a Caatinga enfrenta os maiores desafios de degradação do solo, com 11% da área em estado crítico. Cerca de 42,6% da sua vegetação nativa já foi eliminada. A proteção desse bioma é vital para a biodiversidade, as comunidades locais e o equilíbrio climático.
Aldrin Martin Pérez-Marín, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e coordenador do Observatório da Caatinga e da Desertificação, destaca que a Caatinga é um importante reservatório de carbono, com 72% do carbono armazenado no solo, fazendo dela um valioso aliado no combate ao aquecimento global.
Estudos recentes confirmam que em 2022, a Caatinga foi responsável por aproximadamente metade da captura líquida de carbono do Brasil, ajudando a compensar as emissões de gases de efeito estufa no país.
Políticas e ações para conter a desertificação
Desde que aderiu à Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação em 1997, o Brasil tem estruturado políticas para prevenir e reverter a degradação da terra. Em 2026, foi lançado o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), que promove uma abordagem integrada envolvendo meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e inovação tecnológica.
Outra iniciativa importante é o Programa Recaatingar, lançado em junho deste ano, que tem como meta recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga em 20 anos. O programa valoriza o conhecimento tradicional das comunidades locais e busca garantir segurança hídrica e adaptação às mudanças climáticas.
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, explica que o programa envolve desde o manejo físico do solo até o trabalho com comunidades tradicionais para conservar a biodiversidade da região.
Perspectivas e soluções comunitárias
A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), que reúne mais de 3 mil organizações sociais, atua há mais de 25 anos promovendo soluções que auxiliam as populações afetadas pela desertificação. Um exemplo são os programas de captação de água da chuva, que ajudam as famílias a garantir o acesso à água potável para consumo e produção agrícola.
Além disso, a ASA incentiva o uso de sementes adaptadas ao clima da Caatinga e práticas agrícolas sustentáveis que respeitam o bioma.
Ivi Aliana, coordenadora da instituição, reforça que o combate à desertificação passa pela valorização da agricultura familiar, da agroecologia e das pessoas que vivem nesses territórios, mostrando que a recuperação dessas áreas depende do cuidado e do manejo local, e não apenas de intervenções externas.

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