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Ataque hacker em IAs: riscos e proteção no Brasil
Nas últimas semanas, notícias envolvendo agentes de inteligência artificial têm gerado preocupação entre o mercado e os consumidores. Tanto a OpenAI, responsável pelo ChatGPT, quanto a Anthropic, criadora do Claude, relataram situações em que seus modelos em fase de teste conseguiram acessar a internet e invadir diferentes empresas, tentando cumprir as tarefas atribuídas.
Esse cenário levanta uma questão importante: se uma IA consegue invadir sistemas e obter dados, será que criminosos poderiam utilizá-la para esses fins?
Para Felipe Buchbinder, professor da FGV EBAPE (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas) que ministra disciplinas sobre IA e Novas Tecnologias, a resposta é afirmativa. Ele menciona o Project Glasswing, um projeto da Anthropic com o Claude Mythos Preview, restrito a alguns parceiros, voltado para identificar e corrigir falhas críticas em softwares antes que agentes maliciosos aproveitem essas vulnerabilidades.
— IAs capazes de detectar e explorar fragilidades nos sistemas amplificam o alcance e a eficiência dos hackers. Fica muito mais fácil identificar vulnerabilidades e explorá-las. Além disso, empresas menores e pessoas comuns também têm motivo para se preocupar. Caso um desses modelos consiga comprometer infraestruturas financeiras ou governamentais essenciais, todos poderão ser afetados — ressalta o professor, que compara o impacto dessa tecnologia na geopolítica a uma bomba atômica: — Ter essa tecnologia pode ser uma vantagem enorme, ser o único país sem ela é desastroso, e quando vários a possuem, a situação fica ainda mais preocupante.
Por outro lado, nem tudo são más notícias. Enquanto a inteligência artificial pode aumentar o poder dos hackers, ela também oferece melhores ferramentas para que pessoas e empresas se protejam. Contudo, Buchbinder observa que poucas organizações adotam defesa baseada em IA atualmente, ao contrário daqueles que planejam ataques.
— Empresas e indivíduos podem se tornar alvos vulneráveis ao usarem IA de forma descuidada, compartilhando informações sensíveis e dando acessos excessivos a agentes artificiais. Grandes corporações já limitam o uso de IAs para seus funcionários, visando evitar vazamentos de dados. Se até as gigantes estão preocupadas, empresas menores, que possuem menos recursos de defesa, devem estar ainda mais atentas — completa Buchbinder.
Avanços na legislação brasileira
No final de 2024, o Senado aprovou o Projeto de Lei 2338/2023, conhecido como PL da IA, que agora aguarda análise da Câmara dos Deputados. A legislação pretende regulamentar o uso de plataformas de IA no Brasil, deixando mais claras as sanções vinculadas a crimes cibernéticos cometidos com essas ferramentas.
Para Fábio Pereira, advogado especializado em Tecnologia e Privacidade do escritório Veirano e integrante do Comitê de Inovação da empresa, é fundamental definir responsabilidades entre desenvolvedores, fornecedores, empresas e usuários finais.
— Todos têm alguma responsabilidade. Cabe às empresas implementarem medidas de defesa e delimitarem até onde vai sua responsabilidade — explica Pereira.
Apesar disso, consumidores e empresas não estão completamente desprotegidos no momento atual. Segundo o advogado, o Código de Defesa do Consumidor, o Código Penal e o Marco Civil da Internet já oferecem base legal para lidar com casos na Justiça. A ideia de que criminosos possam transferir culpa para a IA também pode ser contestada.
— A complexidade do algoritmo não pode ser usada como escudo. Quem desenvolve e treina o modelo assume o risco pelos resultados — completa Pereira.
Além disso, órgãos reguladores também vêm se preparando para os impactos tecnológicos. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) está em vigor desde 2018, e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) iniciou suas atividades no final de 2020, antes do uso amplo das ferramentas de IA.
Recentemente, a ANPD solicitou 200 vagas para especialistas em regulação de dados e deve lançar concurso em breve, demonstrando preparação para investigar casos com maior rapidez.
Como se proteger?
Para as empresas, Pereira recomenda ter um plano de resposta a incidentes, além de assessorias jurídica e de segurança cibernética forense. Em caso de ataque, sugere cautela nas ações iniciais.
— A reação comum é desligar sistemas e restaurar backups, mas isso pode eliminar evidências. É fundamental preservar documentos como capturas de tela e registros de mensagens, além de informar clientes e autoridades — orienta o advogado.
Buchbinder destaca quatro cuidados essenciais ao utilizar agentes de inteligência artificial:
- Manter os softwares sempre atualizados. Grandes empresas usam modelos de IA para reforçar a segurança de seus produtos antes que vulnerabilidades sejam exploradas, como no caso do Firefox, que corrigiu 271 falhas identificadas pelo Mythos antes que fossem usadas por atacantes.
- Adotar boas práticas digitais, como autenticação em dois fatores, cuidado com informações compartilhadas e limites aos poderes concedidos a agentes de IA. Em segurança, estar na linha de defesa é o melhor lugar.
- Guardar cópias físicas de informações importantes, como extratos bancários, declarações de imposto e comprovantes de investimento. Embora isso não impeça ataques, mantém uma prova confiável caso registros digitais sejam comprometidos ou perdidos.
- Distribuir recursos entre diferentes instituições financeiras para diminuir riscos. Se uma instituição for comprometida, as demais continuam acessíveis. Essa diversificação também é importante para evitar que falhas em poucos modelos de IA dominantes causem impactos amplificados em todo o setor.

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