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Líder de esquema na Saúde de Goiás mantinha manicure como laranja em 19 empresas

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Controladas pela Mediall, terceirizadas de fachada recebiam milhões em recursos públicos

 

Edina Araújo & Tabita Marinho/Gyn Notícias

Uma manicure de nacionalidade portuguesa, com cidadania brasileira, aparece no centro de uma das ramificações mais intrigantes da operação que investiga o desvio de quase R$ 40 milhões da saúde de Goiás durante a pandemia de Covid-19.

A sofisticada estrutura de desvio de recursos públicos envolve a empresa Mediall, ligada a Hilton Piccelli e apontada como principal beneficiária dos contratos da Organização Social Agir, vinculada ao médico investigado Sérgio Daher, responsável pela gestão de diversos hospitais públicos de Goiás, entre eles HCAMP, HMAP e HUGOL. O esquema também inclui pelo menos 19 empresas terceirizadas de fachada, todas registradas em um único endereço e com uma única sócia: Elismar Maria Cristino.

Segundo documentos da investigação conduzida pela Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros (DRCOF), em sua última declaração à Receita Federal, Elismar informou exercer a profissão de “trabalhadora dos serviços de embelezamento e cuidados pessoais”.

Titular de passaporte português, a investigada, que já esteve no Brasil como turista, ingressou pela última vez no país em agosto de 2020, quando foi classificada nos sistemas do Serviço de Imigração como “brasileira com dupla nacionalidade”.

As empresas nas quais Elismar figura como única sócia começaram a ser abertas a partir de 2019, sendo a maioria constituída em 2021, ano em que a Mediall triplicou sua distribuição de lucros em relação a 2020. Todas estavam registradas em um único endereço, no Loteamento Moinho dos Ventos, identificado pelos investigadores como residência da sócia. Posteriormente, todas as empresas vinculadas à manicure foram baixadas em 2023; das 19, aquelas que permanecem ativas passaram a ter outros sócios e responsáveis.

Registros indicam, ainda, que Elismar recebeu três parcelas do auxílio emergencial, no valor de R$ 600,00 cada, em 16 de junho, 5 de agosto e 11 de setembro de 2020, o que reforça a hipótese investigativa de que atuaria como interposta pessoa (“laranja”) no esquema.

Mediall utilizou rede para abertura de CNPJs, afirma contador

O contador Carlos Ferreira, que prestou serviços para empresas vinculadas a contratos na área da saúde, afirmou em enrtevista ao , nesta quinta-feira (23.04), que a abertura de CNPJs de prestadores ocorreu, em diversos casos, por indicação de profissionais ligados à Mediall.

Ferreira declarou que não era o responsável contábil direto pelas empresas, mas atuava na área “paralegal”, encarregada de procedimentos como abertura, alteração e regularização societária. Segundo ele, a demanda partia, em grande parte, de prestadores que precisavam formalizar suas atividades para atuar junto à Mediall.

“Eu realizava a abertura das empresas. Muitas vezes, a própria Mediall indicava, ou os prestadores já vinculados à empresa me recomendavam a outros. Era comum que a pessoa não tivesse empresa e precisasse constituí-la para prestar serviço”, explicou.

Outro ponto relevante diz respeito ao perfil dos sócios dessas empresas. Em um dos casos, Geissy Kelly Gomes Pereira Barros de Garcia aparece como sócia-administradora da Sonts Serviços Médicos Hospitalares Ltda., embora conste desclassificada num processo seletivo para recepcionista da Prefeitura de Iporá (GO). Conforme busca realizada pela reportagem do , o Capital Social é R$ 104.500 mil.

Questionado sobre a aparente incompatibilidade, o contador afirmou desconhecer detalhes das atividades desempenhadas pelas empresas ou por seus sócios. “Ela me contratou para a abertura da empresa. Sei que prestava serviços para a Mediall, mas não conheço a atividade específica”, declarou.

O contador também confirmou que diversas empresas foram abertas em sequência, com sócios de perfis profissionais distintos, sendo que algumas já se encontram extintas. Ressaltou, ainda, que sua atuação era pontual, sem acompanhamento de faturamento, emissão de notas fiscais ou movimentações financeiras.

Estrela do Norte

A principal empresa vinculada a Elismar, segundo as investigações, é a Estrela do Norte Saudade Serviços Médicos, que recebeu da Mediall Brasil, entre 2020 e 2021, valores superiores a R$ 6 milhões.

A empresa, atualmente inativa, foi constituída em abril de 2020 e possui como atividade principal o “atendimento hospitalar”. Entre suas atividades secundárias consta a prestação de “serviços móveis de atendimento a urgências”. Contudo, a investigação apontou que a empresa não possuía veículos registrados em seu CNPJ, o que inviabiliza a execução dos serviços declarados.

Mediall Brasil S.A.

A Mediall ocupa posição central nas mais de 1.400 páginas do processo, que tramita sob segredo de justiça. De acordo com a Nota Técnica nº 30/2022 da Controladoria-Geral da União (CGU), as irregularidades atribuídas à empresa incluem “direcionamento de contratos, superfaturamento e ausência de prestação dos serviços contratados”.

115 horas semanais

A empresa alterou sua denominação social diversas vezes ao longo dos anos e possui ao menos 17 filiais distribuídas pelo país. Seu principal sócio durante o período dos contratos com a Agir foi o médico e empresário Hilton Piccelli, preso na operação realizada no último dia 17, e, posteriormente solto em plantão Judiciário no domingo (19.04).

Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), Piccelli chegou a manter nove vínculos ativos em diferentes Estados, totalizando aproximadamente 115 horas semanais de trabalho, carga considerada fisicamente incompatível pelos investigadores.

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