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Mãe julgada por matar filhos levanta debate sobre psicose pós-parto
O julgamento altamente divulgado de Lindsay Clancy — que estrangulou seus três filhos e alega ter sofrido psicose pós-parto — traz à tona uma discussão importante sobre a saúde mental das mães nos Estados Unidos.
A enfermeira, de 36 anos, admite ter estrangulado Cora (5 anos), Dawson (3 anos) e Callan (oito meses) usando faixas de exercício em sua residência em Duxbury, Massachusetts, em janeiro de 2023. Após o ato, ela se jogou pela janela do segundo andar, o que causou paralisia da cintura para baixo, deixando-a em cadeira de rodas.
No entanto, Clancy declarou-se inocente por motivo de insanidade, afirmando que ouviu uma voz que a mandava matar seus filhos. Seus advogados argumentam que ela sofreu uma psicose puerperal.
A promotoria rejeita essa versão, alegando que ela planejou os assassinatos e tinha plena consciência das consequências de suas ações. O júri já está deliberando.
Nas últimas semanas, muitas mulheres vestidas de rosa estiveram presentes no tribunal de Plymouth para apoiar Clancy e para levantar discussões sobre a saúde das mulheres.
Kelly Woods, advogada de Chicago, acompanhando o caso, afirma que defende fortemente as pessoas que sofrem de psicose pós-parto. “Espero que a comunidade médica possa aprender com esse caso”, disse. “Mais importante, espero que ele ajude a promover maior compreensão e apoio para quem enfrenta depressão e psicose pós-parto.”
Psiquiatras e pessoas próximas a Clancy e seu esposo — de quem está separada — relataram o estado emocional desesperador em que ela estava. Caso seja considerada culpada, Clancy poderá ser sentenciada à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
Um problema que passa despercebido
A psicose pós-parto é uma emergência médica que atinge entre uma e duas mulheres a cada mil partos, segundo Sally Wilson, coordenadora da ONG britânica Action on Postpartum Psychosis.
O caso de Clancy é descrito como um resultado extremamente angustiante e raro dessa condição, conforme declarou à AFP.
Durante o julgamento, o advogado de Clancy, Kevin Reddington, frisou que a mãe buscou ajuda diversas vezes antes dos trágicos eventos, mas recebeu atendimento inadequado dos profissionais de saúde.
Adrienne Griffen, diretora da ONG Maternal Mental Health Leadership Alliance, comentou: “Ela estava tentando conseguir ajuda e, por alguma razão, o sistema falhou com ela.” Ela acrescentou que a grande questão é como prevenir que episódios assim se repitam, enfatizando a necessidade de mais recursos para as mães.
A promotoria reconheceu que Clancy enfrentava problemas psiquiátricos e havia tentado suicídio, porém ressaltou que os assassinatos foram premeditados e particularmente cruéis.
Esse julgamento lembra outro caso semelhante que chocou os Estados Unidos há 25 anos: Andrea Yates, mãe do Texas que afogou seus cinco filhos em 2001.
Yates foi inicialmente condenada à prisão perpétua, mas um novo julgamento em 2006 a absolveu por insanidade, levando à sua internação em hospital psiquiátrico.
Boas mães x mães más
Voices políticas conservadoras criticaram a brutalidade dos assassinatos, enquanto apoiadores de Clancy se reuniram em frente ao tribunal.
Katie Miller, podcaster e esposa do principal assessor do ex-presidente Donald Trump, escreveu nas redes sociais: “Lindsay Clancy merece morrer por matar seus três filhos”.
Juliet Williams, professora de estudos de gênero na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), observou que o julgamento e o debate em torno dele revelam o grande interesse que os americanos — e o mundo todo — têm pela imagem da mãe.
Ela destacou que o caso é uma chance não só de lamentar uma tragédia, mas também de refletir sobre como as figuras da ‘boa mãe’ e da ‘mãe má’ se tornam temas que dividem a sociedade profundamente.

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