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Nossa América Latina
O que a noite latino-americana de Shakira, em Copacabana, tem a ver com o atual líder agitado de Washington? Cultura e o mundo das ideias não são conceitos abstratos; são ações das pessoas, revelando quem elas são, seus sonhos fragmentados e desejos inconscientes. Cada país é mostrado em sua totalidade: seus valores, o lúdico e o lúcido. Assim, os contrastes ficam evidentes e expostos. De um lado, a cultura bélica de parte dos Estados Unidos, retratada na figura ameaçadora de um homem que não reconhece seu semelhante, buscando sua imagem nos prédios e no dólar — um Narciso moderno. Do outro, a cultura descontraída dos brasileiros, onde nasceu a flor do Lácio, terra de nossa origem comum.
Sérgio Buarque de Holanda afirmou que o brasileiro é homem cordial, mas não no sentido de empatia, e sim de paixão. O termo cordial, para Buarque, remete ao coração, do latim cor, cordis. O brasileiro é apaixonado pela vida, inspirado em sua formação triétnica: a natureza dos indígenas, a melancolia dos portugueses e a alegria dos africanos, com um destino marcado por Copacabana.
A noite latino-americana em Copacabana foi uma metáfora para o espírito do continente, sua poesia, riqueza social, possibilidades éticas e limites. Revelou uma história em emergência, uma vitória de sensibilidade. A paisagem ecumênica daquele mar úmido exibiu três bandeiras: Brasil, Argentina e Uruguai, enquanto uma artista colombiana cantava em português, acompanhada por um cantor brasileiro que cantava em espanhol. Precisamos de mais palavras?
A cantora colombiana dedicou seu show às mulheres, especialmente às mães solteiras que batalham para sustentar suas famílias — no Brasil, são 20 milhões. Pesquisas indicam que mais da metade das famílias brasileiras é sustentada por mulheres, especialmente após a ausência dos homens. Assim, o sentimento feminino se torna uma construção de territórios de luta, resistência e afeto, gerando laços e amizades. Por isso, acredito que a mulher é mais inteira que o homem.
O Brasil é um país que valoriza sua experiência no feminino: as chefes de família, mães e avós, generosas no ato de doar. Esta é a sua verdade. Albert Camus escreveu que o essencial é a verdade que perdura. Esta é a história das mulheres brasileiras: continuarem apesar da dor, que não impede o amor. Camus também disse que é na alegria que preparamos nossas lições, o que explica a atmosfera de Copacabana, um lugar raro, único, carnavalizado, apaixonado e tropical.
Aquela noite foi sem pressa, o tempo parecia parado em um abraço coletivo. A pressa moderna é fatal, como disse Nelson Rodrigues, pois impede o pensamento e a reflexão. Olhar é entender o que existe, apreciar os azuis da arte e os amarelos de Van Gogh. Talvez por isso nos sintamos solidários — este é o grande trunfo da latinidade, que abre caminho para o futuro.
O futuro reside na esperança das nossas mãos, que sabe esperar, sentindo o aroma da orquídea, recebendo a brisa suave do mar, percebendo o silêncio das estrelas para então construir. Assim se edifica o amanhã, com o artesanato dos bons sentimentos. Senti isso em Colônia do Sacramento, no solo fértil do Uruguai, um pedaço sereno da latinidade, da América Latina.

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