Centro-Oeste
ônibus 111: rotina e esperança das famílias na ida à Papuda
São 5h30 da manhã na Rodoviária do Plano Piloto. Na plataforma A, onde o ônibus 111 deve chegar, um grupo silencioso de mulheres vestidas de branco espera com sacolas nas mãos.
Mães, esposas, filhas e irmãs unem-se pela coragem e pela esperança de uma nova chance. Enquanto a cidade acorda, elas já enfrentam o trajeto de suas casas até a rodoviária e depois seguem para um lugar que muitos desconhecem: o sistema prisional.
A roupa branca é necessária para entrar na prisão, uma regra nem sempre conhecida por todas as visitantes. Muitas preferem levar a roupa na sacola e se trocar somente ao chegar, para manter a normalidade da vida fora. Apesar de não estarem presas, o olhar da sociedade as julga diariamente.
“É desconfortável sair de casa toda branca. Prefiro ir com roupa normal, porque me sinto julgada ao visitar meu filho preso. Para voltar, também troco de roupa para não chamar atenção”, conta mãe de um detento.
O ônibus faz o mesmo percurso diariamente, e nas quartas e quintas, dias de visita, o serviço é ampliado. O trajeto até o Complexo Penitenciário da Papuda dura 40 minutos pela manhã, podendo chegar a uma hora e meia em horários de pico.
O visitante pode entrar na prisão a cada duas semanas para ver seus familiares. Na rodoviária, a fila já se forma cedo, composta principalmente por mulheres com sacolas grandes. Ambulantes também circulam, vendendo itens permitidos na visita.
Quando o ônibus chega, as visitantes embarcam em silêncio, acompanhadas pela bênção de um ex-detento que se despede. O clima no ônibus mantém-se calmo até o destino.
Dignidade nas visitas
As visitas duram cerca de duas horas e são recheadas de saudade. As visitantes carregam biscoitos, doces, roupas brancas e itens básicos, além da esperança de que seus entes queridos sejam tratados com dignidade.
O complexo tem quatro unidades, incluindo regimes provisório, semiaberto e fechado. O sistema está superlotado, com número de presos muito maior que sua capacidade, e relatos indicam que a alimentação precária provocou surtos de saúde entre os detentos.
Essa situação revela a violência silenciosa enfrentada diariamente no presídio. São milhares de visitantes autorizadas a entrar para ver seus familiares.
Experiência de Maria Lúcia
Maria Lúcia, 42 anos, faxineira e mãe de seis, faz o trajeto para visitar o filho preso por tráfico. Ela conta que a prisão do filho foi acompanhada de uma abordagem policial agressiva em sua casa, causando medo e sofrimento à família.
Ela relata ainda o desconforto enfrentado ao ser obrigada a vestir roupas brancas e trocar absorventes sob vigilância das agentes durante as visitas. Apesar das dificuldades, ela percebe sinais do sofrimento do filho e de outros detentos e discorda da forma como o sistema trata seus familiares.
O motorista e a cobradora do 111
O motorista Alan Rodrigues, e a cobradora Aparecida Santos estão na linha há anos e acompanham histórias emocionantes durante as viagens. Eles ajudam visitantes a não se perderem e convivem com passageiros presos com respeito, mesmo em situações tensas como revistas policiais rigorosas.
A dupla entende a importância desse trajeto como o único momento de afeto para muitas famílias.
Do lado de fora
Na saída do presídio, Zilda Severo da Silva mantém um serviço de guarda-volumes para as visitantes, que não podem levar bolsas e objetos ao interior da penitenciária. Ela oferece esse apoio há 18 anos, ajudando quem precisa guardar seus pertences a um custo acessível.
Zilda sustenta suas três filhas com esse trabalho simples, embora tema perder a atividade se o governo implantar um serviço oficial.
Guerreiras de Fé
O caminho até a Papuda é longo e cheio de sentimentos, mas a luta continua. Além das visitas presenciais, existe uma rede de apoio online chamada “Guerreiras de Fé”, com centenas de participantes que compartilham experiências, conselhos e apoio emocional, mantendo viva a esperança e a resistência feminina.
O grupo funciona sob regras de respeito e confidencialidade, criando um espaço seguro para quem enfrenta esse desafio.
O ciclo recomeça a cada 15 dias, quando a fila se forma novamente na rodoviária, mostrando que enquanto há alguém do lado de dentro, há sempre alguém lá fora resistindo.
Com informações Jornal de Brasília

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