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Pressão popular força renúncia do presidente da Bolívia
Uma série de bloqueios em estradas ao redor de La Paz, capital da Bolívia, questiona o governo recém-instalado de Rodrigo Paz, no poder há apenas seis meses após duas décadas dominadas pela esquerda no país andino.
Os protestos surgiram como reação à promulgação da Lei 1.720, que pode modificar a propriedade de terras na Bolívia. Inicialmente focado na revogação da lei, o movimento também passou a incluir grupos como professores e mineiros, com algumas organizações pedindo a saída do presidente.
Aprovada pelo Parlamento em março, a Lei 1.720 foi sancionada em 10 de abril por Rodrigo Paz. Ela permite a transformação de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias, possibilitando o acesso a linhas de crédito.
A lei, apoiada por associações agrícolas empresariais, é vista pelo governo como uma medida para estimular a agricultura e reanimar a economia, abalada por crises cambiais e falta de dólares.
Entretanto, movimentos indígenas e camponeses alertam que esta norma ameaça terras coletivas, podendo expulsar pequenos proprietários por conta da especulação e hipotecas.
Alina Ribeiro, doutoranda em ciência política na Universidade de São Paulo (USP), que estuda a Bolívia, informou que os grupos populares receiam a dissolução das terras comunais, cultivadas coletivamente.
“O ideal seria que o governo facilitasse créditos também para pequenas propriedades, já que muitas comunidades indígenas, reconhecidas pelo Estado, estão organizadas em territórios comunitários originários. Eles temem que esta lei provoque a desintegração desses territórios”, explicou Alina Ribeiro.
Mobilização crescente
No início de abril, organizações indígenas e populares iniciaram marchas em direção a La Paz a partir dos departamentos de Pando e Beni, na região amazônica do norte do país, exigindo a revogação da lei.
São quase 30 dias de caminhadas por mais de 400 quilômetros, com milhares de manifestantes bloqueando acessos à capital. O movimento conquistou o apoio de diversos setores nas últimas semanas.
A Central Operária Boliviana (COB), principal central sindical do país, declarou uma greve geral por tempo indeterminado, denunciando repressão policial e prisões de líderes. Entre as reivindicações está um aumento de 20% no salário mínimo.
Alina Ribeiro, do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDAC-Cebrap), ressaltou que os bloqueios são uma ferramenta potente na Bolívia.
“Por ser um país pequeno, bloquear o acesso a La Paz significa impedir a chegada de alimentos e recursos, o que força o governo a negociar com as organizações em mobilização”, explicou.
Revogação da lei
Em 12 de maio, Rodrigo Paz revogou a lei controversa, estabelecendo um prazo de 60 dias para que o Parlamento prepare um novo texto.
“Com diálogo e união dos bolivianos, a Lei 1.720 foi revogada. Agora precisamos de uma nova legislação baseada em consenso, com consulta pública e ouvindo todos os setores”, declarou o presidente em comunicado oficial.
No entanto, o líder da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), Humberto Claros, afirmou que a revogação não basta, pois é necessária a tramitação de nova lei no Parlamento.
“Esta é uma trégua de 60 dias. Depois, o governo e sua elite aprovarão outra lei favorecendo interesses empresariais e prejudicando os verdadeiros camponeses”, afirmou Humberto Claros em vídeo nas redes sociais.
Aumento da tensão
O governo tenta criminalizar o movimento, acusando, sem provas, os líderes de receberem financiamento do narcotráfico. O ex-presidente Evo Morales também é apontado como influenciador dos protestos.
Na última sexta-feira, Rodrigo Paz adotou uma postura dura, acusando os manifestantes de ameaçar a democracia.
“Aqueles que tentaram destruir a democracia no passado irão para a prisão, porque o valor da democracia é maior que interesses pessoais”, afirmou em evento oficial.
Evo Morales afirmou em rede social que os protestos são legítimos do povo e denunciou um suposto plano do governo, com apoio dos EUA, para atacá-lo.
“Quando neoliberais e latifundiários protestam, é democracia; quando trabalhadores, indígenas e camponeses protestam, é terrorismo e ilegalidade”, disse o ex-presidente.
Crise social acumulada
A crise política e social na Bolívia se intensificou desde dezembro de 2025, quando o governo eliminou subsídios aos combustíveis pelo Decreto 5.503, provocando bloqueios e manifestações que forçaram o recuo estatal em janeiro, ao restaurar os subsídios.
Alina Ribeiro aponta que as políticas do atual governo têm suscitado forte resistência em uma população afetada pela crise econômica que persiste há anos.
“A principal queixa das pessoas é o alto custo de vida, desde alimentos básicos até transporte,” destacou.
O governo também formou uma comissão para revisar a Constituição Plurinacional, promulgada durante os governos de Evo Morales, que reconhece a diversidade indígena no país.
Rodrigo Paz anunciou ainda projetos para alterar leis sobre petróleo, gás natural, mineração, investimentos, regras eleitorais, segurança, reforma judicial e redução do Estado.
Ele justifica as reformas como essenciais para controlar a inflação e atrair investimentos.
Segundo Alina Ribeiro, “São medidas para viabilizar investimento externo em recursos naturais, como acordos para extração de lítio, elemento estratégico para a Bolívia.”
Setores opositores acusam o governo de favorecer o capital estrangeiro às custas da maioria da população.
“O país rejeita as leis neoliberais que saqueiam a nação e a classe popular, beneficiam os ricos e geram pobreza. O governo está distante dos sentimentos da população que luta contra os pacotes de austeridade”, afirmou o líder sindical Humberto Claros.

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