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Pesquisa em Londres tenta esclarecer o desaparecimento das vítimas do Plano Condor
Nunca perdemos a esperança, mesmo nos momentos mais difíceis, compartilha a chilena Laura Elgueta Díaz com a AFP, expressando seu anseio de que, algum dia, o desaparecimento de seu irmão Luis, uma das muitas vítimas do Plano Condor há 50 anos, seja elucidado.
Esse trabalho de investigação e documentação do Plano Condor — um sistema coordenado de repressão firmado pelas ditaduras sul-americanas em novembro de 1975 — é conduzido por um grupo multidisciplinar liderado da cidade de Londres pela professora italiana Francesca Lessa, há cinco anos.
Laura Elgueta Díaz lembra que muitas famílias ainda buscam respostas, enquanto uma nova geração se envolve nessa tarefa, apesar da morte de parentes e até mesmo de perpetradores.
Luis, desaparecido em Buenos Aires em julho de 1976, é um símbolo dessa busca pela verdade. No mesmo mês, María Cecilia Magnet, também chilena, sumiu da mesma forma com seu marido.
Sua irmã, Odette Magnet, mantém uma visão mais cética: ela acredita que pouco será descoberto além do que já se sabe, devido ao silêncio imposto pelos envolvidos nos crimes e o pacto de não revelar informações.
Essa dor, segundo Odette, permanece tão intensa após cinco décadas quanto no primeiro momento.
Francesca Lessa dedica sua carreira ao estudo do Plano Condor, desde 2014 na Universidade de Oxford e agora na University College London (UCL), onde é professora de Relações Internacionais das Américas e coordena um site especializado no tema.
Segundo Lessa, o levantamento atual contabiliza ao menos 805 vítimas verificadas, incluindo desaparecidos, assassinados, sequestrados que sobreviveram e crianças roubadas. Esse sistema repressivo envolveu as juntas militares de Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil.
Mais da metade dessas vítimas, 461, enfrentaram processos judiciais.
O trabalho de Lessa resultou em um livro acadêmico e uma base online para análise e documentação do Plano Condor, contando com a colaboração de quase 20 pesquisadores, entre eles a uruguaia psicóloga Mariana Risso, que acompanhou vítimas de tortura e participou de publicações sobre memória histórica.
Risso relata que as pessoas que viveram situações extremas de violência compartilharam não só suas experiências, mas também demonstraram solidariedade e cuidado para com aqueles que as acompanhavam.
Além da pesquisa acadêmica, Francesca Lessa enfrentou ameaças de morte em 2017, uma realidade que evidencia a dificuldade e o risco envolvidos nesta área.
Outra meta da equipe liderada por Lessa é criar uma base de dados detalhando os julgados vinculados ao Plano Condor. Ela acompanhou pessoalmente 74 audiências na Argentina e 13 na Itália, além de entrevistar 105 pessoas.
O envolvimento pessoal nas histórias e o sofrimento das famílias lutando por justiça ao longo de cinquenta anos são fonte constante de inspiração para a pesquisadora.
Seu primeiro livro foi publicado em diversos idiomas e deve chegar ao Brasil em 2026. A partir do material do site, também surgiu uma obra ilustrada em parceria com o artista uruguaio-argentino Sebastián Santana, já publicada em vários países sul-americanos e com previsão de lançamento nos Estados Unidos em maio próximo.

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