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Economia

China lidera corrida global de IA com aposta em usos práticos

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Em meio à intensa competição entre Anthropic, Google, Meta e OpenAI por investimentos, usuários, capacidade computacional, manchetes e contratos com o governo dos EUA, a atual disputa pela liderança na inteligência artificial (IA) pode ter um líder inesperado — e não é nenhuma dessas grandes empresas americanas.

Dominando modelos de código aberto, IAs de alta performance, forte atuação acadêmica e custos reduzidos, a China silenciosamente assumiu a dianteira.

O principal indício disso surgiu no AI Index 2026, divulgado pela Universidade Stanford, na Califórnia, recentemente. O relatório revela que não existe mais diferença de desempenho significativa entre as IAs dos EUA e da China, com sistemas dos dois países se revezando no topo dos rankings.

Em março deste ano, o modelo americano mais potente, Claude Opus 4.6 da Anthropic, marcou apenas 39 pontos a mais que o principal modelo chinês, o Dola-Seed-2.0 Preview, no Chatbot Arena — distância de apenas 2,7% de performance. Em maio de 2023, essa diferença era de 31% entre o americano GPT-4-0314 e o chinês ChatGLM-6B.

O relatório também destaca que, em fevereiro do ano passado, a DeepSeek liderava as comparações, e agora o mercado aguarda o impacto do V4, nova geração da empresa chinesa lançada recentemente, que tenta repetir o sucesso de 2025, quando surpreendeu o Vale do Silício com resultados expressivos obtidos a partir de investimentos muito menores que os americanos.

Popularidade prática

Além do desempenho, os modelos chineses estão ganhando espaço entre desenvolvedores de produtos e soluções. A família Qwen, criada pelo braço de computação em nuvem do Alibaba, tornou-se a mais baixada na plataforma Hugging Face em janeiro deste ano, com 700 milhões de downloads. Em dezembro de 2025, a linha Qwen já tinha mais downloads que a soma dos oito seguintes na lista, incluindo sistemas da Meta e OpenAI.

Enquanto as big techs americanas chamam atenção por anunciarem IAs poderosas que indicam o futuro, a popularidade entre desenvolvedores simboliza liderança tecnológica atual.

A estratégia chinesa não visa apenas criar superinteligência, mas implementar IA em aplicações reais, predominando em processos industriais e robótica — ciência aplicada, segundo Claudia Trevisan, diretora executiva do Conselho Empresarial Brasil-China.

A China domina o ecossistema de código aberto, permitindo que programadores globais usem suas tecnologias. As principais IAs chinesas, como GLM, Kimi, DeepSeek, Qwen e MiniMax, operam nesse modelo.

Meta e Alphabet também investiram em código aberto por anos, mas mudaram a abordagem ao esquentar a rivalidade — Facebook lançou a primeira família fechada de sua história, Muse, e o Google deixou de liberar seus melhores modelos.

Ao contrário disso, a China aumenta sua influência global, tornando outros desenvolvedores e países dependentes de sua arquitetura e padrões tecnológicos.

Luca Belli, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, ressalta que a China tem uma visão sistêmica, buscando autossuficiência e projeção econômica e política internacional.

Resposta ao protecionismo

Parte do avanço chinês é reação às restrições dos EUA. Desde 2022, empresas da cadeia de chips enfrentam limitações para vender componentes avançados à China, devido à “Regra de Produto Estrangeiro Direto”. Esse regime obriga que bens contendo componentes americanos sigam normas dos EUA, limitando exportações para a China.

Com a volta de Donald Trump à presidência em 2025, a Nvidia teve restrições para vender chips como o H200 para a China, seguindo ciclos de proibição e liberação, tornando as vendas dependentes da aprovação dos governos de Washington e Pequim.

Claudia Trevisan observa que as proibições anteriores convenceram a liderança chinesa da necessidade de autonomia tecnológica. Apesar da dependência de semicondutores importados, o desenvolvimento local avança rapidamente.

Empresas chinesas lançaram seus próprios chips, como o Huawei Ascend 910C, que oferece 76% do poder do Nvidia H200, e o Baidu M100. Para compensar a falta de chips potentes, startups adotam arquiteturas mais eficientes, como Mixture-of-Experts (MoE), usada pelo DeepSeek V3, marco recente da IA.

O AI Index 2026 destaca a eficiência energética do DeepSeek, que emitiu apenas 597 toneladas de CO2 no treinamento do modelo, contra 72.816 toneladas do Grok 4 de Elon Musk e 8.930 toneladas do Llama 3.1 da Meta.

Potência científica e inovação

Além da eficiência, a China se tornou potência científica da IA. Entre os 100 artigos mais citados em 2024, 46 são americanos, mas em declínio (eram 64 em 2021). A China subiu de 33 para 41 no mesmo período e lidera em volume total de publicações, citações e patentes. Em 2024, 20,6% das citações globais e 74,24% das patentes de IA são chinesas.

As gigantes americanas acusam a China de “roubo” tecnológico e formaram um fórum contra a suposta prática de “destilação adversária”, em que empresas chinesas utilizariam IAs americanas para treinamento de seus modelos.

Eficiência financeira

Além de eficiência computacional e energética, a China investe muito menos em IA que os EUA — US$ 12,4 bilhões em 2025 contra US$ 285,9 bilhões americanos no mesmo ano — mas com forte apoio estatal em setores estratégicos.

Em 2024, Pequim anunciou fundo estatal de US$ 138 bilhões para IA. Ainda assim, o investimento total privado americano entre 2013 e 2025 foi de US$ 757,3 bilhões, contra US$ 184 bilhões de fundos estatais chineses entre 2000 e 2023.

O papel dos tokens na nova era da IA

Esse cenário favorece a China na era dos agentes de IA, próxima fase tecnológica, onde o uso de tokens — unidades mínimas de texto processadas pelas IAs — é crucial. Tarefas autônomas consomem muito mais tokens que chatbots comuns, tornando o custo por token fator decisivo para viabilizar serviços.

Modelos chineses como MiniMax e MoonShot cobram entre US$ 2 e US$ 3 por milhão de tokens processados, enquanto o Claude Sonnet 4.5 da Anthropic cobra US$ 15, o que atrai empresas e desenvolvedores.

O MiniMax M2.5 teve crescimento de 476% no uso só em março. O custo reduzido por token representa a aposta chinesa em modelos abertos, superando restrições e priorizando eficiência e soluções científicas.

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