Economia
Bancos aumentam provisões para perdas com calotes em 33%
Os principais bancos brasileiros reforçaram as reservas para eventuais perdas no início do ano, diante do aperto no crédito. O setor sofre os efeitos retardados da alta da Selic para 15%, que aumenta o endividamento de empresas e famílias a níveis sem precedentes. Esse quadro é piorado pela guerra no Oriente Médio e o aumento do preço do petróleo, o que dificulta a redução das taxas básicas de juros pelo Banco Central.
Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco somaram R$ 44,8 bilhões em provisões contra clientes inadimplentes no primeiro trimestre, 33% mais que no mesmo período do ano anterior, descontando valores recuperados. Essa métrica é conhecida como custo de crédito.
Parte desse aumento resulta da regulamentação CMN 4 966, que antecipa o reconhecimento de perdas e torna mais rigorosa a avaliação do risco, pressionando provisões e índices de inadimplência. O ambiente macroeconômico também justifica os ajustes.
Nícolas Merola, analista da EQI Research, destaca: “Estamos em um momento de virada do ciclo, com efeito atrasado da política monetária. Isso deverá causar impactos por algum tempo”.
O Banco do Brasil enfrentou desafios maiores, aumentando seu custo de crédito para R$ 18,9 bilhões, alta anual de 86%. O banco público tem sofrido com a volatilidade no agronegócio devido a preços instáveis e eventos climáticos extremos. Em março, a inadimplência rural do BB subiu para 6,22%, de 2,76% no ano anterior.
Do total provisionado para perdas, o agronegócio respondeu por R$ 7,4 bilhões. O banco esperava recuperar entre R$ 2 e R$ 2,5 bilhões, mas recuperou apenas R$ 1,2 bilhão. O risco aumentou também na carteira de pessoas físicas, com maior endividamento familiar.
Geovanne Tobias, vice-presidente de Gestão Financeira do BB, comenta: “O agronegócio é o maior fator de risco para crédito. Ainda não conseguimos recuperar o esperado. Já reforçamos provisões na carteira de cartões de crédito”.
Nos bancos privados, embora a qualidade tenha piorado, a extensão varia. O Santander viu sua inadimplência subir para 3,3%, crescimento de 0,6 ponto percentual em 12 meses, segundo critérios de atrasos superiores a 90 dias.
No Bradesco, o aumento foi mais discreto, de 0,1 ponto percentual, e no Itaú permaneceu estável em 1,9%. Porém, no Itaú, a inadimplência cresceu entre micro, pequenas e médias empresas, devido ao fim dos programas governamentais de carência, como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI).
Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, prevê avanço da inadimplência entre 0,1 e 0,2 pontos percentuais. Ele ressalta que os índices continuam baixos e em linha com as expectativas de rentabilidade e perdas esperadas.
Casos pontuais em grandes empresas, como Grupo Pão de Açúcar e Raízen, que protocolaram recuperação extrajudicial, também influenciam o aumento das provisões. No Bradesco, o custo de crédito avançou para 3,5%, número que deve permanecer em torno de 3,3% no ano.
Os analistas do Citi indicam que este índice é chave para monitorar o desempenho do Bradesco, já que qualquer retrocesso pode afetar o retorno sobre o patrimônio (RoE). Eles esperam que o custo do risco continue elevado nos próximos trimestres, principalmente no crédito de varejo.
O CEO do Santander, Mario Leão, afirma que não há uma preocupação estrutural, mas que estão atentos a pequenas empresas, agronegócio e carteiras de cartões. Ele prevê melhora no agronegócio em 2026, mas ainda longe da normalidade. Leão está em processo de transição para Gilson Finkelsztain, atual CEO da B3.
Em março, a inadimplência total do crédito no Brasil alcançou 4,3%, comparado a 3,3% no ano anterior, segundo dados do Banco Central. Para aliviar esta pressão, o governo lançou uma nova versão do programa Desenrola, que ajuda trabalhadores com salários até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil, com atraso entre 90 dias e dois anos.
O programa oferece descontos de até 90%, garantidos pelo Fundo Garantidor de Operações (FGO). Apesar de bem recebido pelos bancos, o impacto será limitado nos grandes bancos, segundo reportagem do Broadcast. O JPMorgan avalia que as medidas não resolvem o problema estrutural da alavancagem, mas podem ajudar a recuperar créditos perdidos, com destaque para o Nubank como maior beneficiado.

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