Conecte Conosco

Economia

El Niño pode aumentar preços e causar perdas no campo em Pernambuco

Publicado

em

A expectativa de um El Niño com alta intensidade nos próximos meses tem mobilizado especialistas, agricultores e representantes do setor produtivo em Pernambuco. Meteorologistas internacionais preveem que o fenômeno, decorrente do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, deverá atingir níveis próximos aos observados em 1997 e 2015, anos marcados por eventos climáticos severos.

Embora o El Niño seja um fenômeno natural recorrente, o cenário atual gera preocupação devido à combinação com as mudanças climáticas globais. Espera-se um período de chuva abaixo do usual, temperaturas elevadas, redução na disponibilidade de água e impactos relevantes na agricultura, pecuária, geração de energia e nos preços ao consumidor.

Em Pernambuco, os efeitos tendem a ser particularmente intensos, já que o estado possui uma das menores reservas hídricas do país e concentra cadeias produtivas vulneráveis, como a agricultura familiar, pecuária leiteira e produção de cana-de-açúcar. Especialistas alertam que os impactos econômicos podem ser sentidos tanto nas áreas rurais quanto urbanas, especialmente através do aumento dos preços dos alimentos e da energia.

Impactos Econômicos

De acordo com o economista Paulo Alencar, as projeções indicam cerca de 63% de chance da ocorrência de um evento forte ou muito forte. Os impactos econômicos mais marcantes devem surgir no início de 2027, quando a queda na produtividade agrícola começar a afetar o mercado consumidor.

Paulo Alencar destaca que o Nordeste já convive com baixos índices pluviométricos, e o El Niño tende a agravar essa condição, diminuindo ainda mais a chuva, o que prejudica a produção agrícola e compromete as safras dependentes das precipitações.

Ele explica que os efeitos nos preços só serão sentidos com o tempo, já que algumas plantações estão em andamento, porém as próximas fases de cultivo poderão sofrer perdas significativas. A inflação dos alimentos frescos, como hortaliças, frutas, leite e carne, deve ser uma das consequências mais evidentes, pois a menor oferta eleva os valores desses produtos no mercado.

Setor Pecuário

A agropecuária é um dos setores mais vulneráveis ao El Niño. A pesquisadora e especialista em mudanças climáticas do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Francis Lacerda, aponta que o Semiárido e o Agreste são as regiões mais expostas aos impactos do fenômeno.

Durante um dos episódios intensos da década de 1990, áreas do Sertão do São Francisco sofreram redução de quase 80% na precipitação comparado à média histórica. Os efeitos do El Niño incluem seca prolongada e ondas de calor, que aumentam os dias consecutivos sem chuva, elevam as temperaturas e agravam a diminuição dos níveis dos reservatórios.

Francis Lacerda ressalta que a pecuária leiteira, concentrada no Agreste, é especialmente afetada, pois altas temperaturas causam alterações no metabolismo dos animais, reduzindo a produção de leite e impactando a renda dos produtores e a oferta de alimentos.

Pequenos agricultores são os mais prejudicados, uma vez que possuem menor acesso a tecnologias de irrigação e adaptação climática.

Energia Elétrica

Além da alimentação, a energia elétrica também pode sofrer pressões inflacionárias. O economista Edgar Lima explica que a redução das chuvas diminui os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, aumentando a necessidade de uso das termelétricas, que têm custos maiores de geração.

Apesar da expansão das fontes solar e eólica, o Brasil continua dependente das hidrelétricas. A diminuição dos reservatórios gera um efeito em cadeia, elevando os custos da energia.

Setor Sucroenergético

Embora os impactos do El Niño sejam mais severos no Agreste e no Sertão, o setor da cana-de-açúcar também está atento. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e álcool em Pernambuco (Sindaçúcar-PE) e da NovaBio, Renato Cunha, a redução das chuvas pode comprometer a produtividade dos canaviais na Zona da Mata.

Renato Cunha destaca medidas preventivas, como antecipar plantios para aproveitar a umidade do primeiro semestre e evitar expansão excessiva das áreas plantadas em períodos de incerteza climática. Ele também enfatiza a importância da irrigação e do armazenamento de água para garantir a segurança hídrica.

Planejamento e Prevenção

Para o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe), Pio Guerra, o foco deve ser na prevenção, adotando ações antes que os impactos ocorram, pois as medidas emergenciais costumam ser mais custosas.

Pio Guerra sugere ampliar a estocagem de forragem, fortalecer os sistemas de abastecimento de água, ampliar o crédito rural, revisar seguros agrícolas e planejar antecipadamente para possíveis decretos de emergência.

Experiências anteriores mostram que as perdas podem ser significativas, com reduções superiores a 25% na produtividade e mortalidade de rebanhos excedendo 20%.

Duração do Fenômeno

Francis Lacerda explica que o pico do El Niño geralmente ocorre entre novembro e janeiro, mas devido à intensidade, o fenômeno pode durar mais de um ano e, em alguns casos, até dois anos.

Diante desse contexto, os especialistas reforçam a importância de investir em adaptação climática, fortalecimento da infraestrutura hídrica, ampliação da irrigação e desenvolvimento de tecnologias agrícolas resistentes à seca. O custo da prevenção é muito menor comparado aos prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos, que se tornam cada vez mais frequentes no cenário do aquecimento global.

Clique aqui para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe um Comentário

Copyright © 2024 - Todos os Direitos Reservados