Economia
Motoristas de app têm mais risco de dívidas
De repente, um problema no motor e um vazamento de óleo. Surgiu uma dívida de R$ 2,5 mil no mecânico para a motorista de aplicativo brasiliense Bárbara Sousa, 28 anos. Na última semana, ela enfrentou a difícil realidade desse trabalho: as despesas ultrapassando os ganhos. “Virou parcelas no cartão de crédito”, lamenta.
Ela consegue tirar uma renda de R$ 300 por dia, mas quando o carro precisa parar por algum motivo, a situação complica.
“Tem que trabalhar muito, entre 10 e 12 horas, só para conseguir pagar as contas e as dívidas”, afirma.
A história de Bárbara é ilustrativa de um estudo divulgado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST). O relatório alerta que os motoristas de aplicativos enfrentam alto risco de terem dívidas devido à instabilidade da profissão e à oferta de empréstimos diretamente pelas plataformas.
Exploração disfarçada
Esses empréstimos são descontados diretamente dos pagamentos pelos corridas, chegando a até 30%. Segundo os pesquisadores, esse sistema lembra formas antigas de exploração, mas adaptado ao ambiente digital.
No Brasil, mais de 1,7 milhão de pessoas trabalham por meio de aplicativos e plataformas digitais. As empresas de transporte negam vínculo empregatício e transferem os riscos e custos para os trabalhadores. Elas descontam entre 20% e 30% dos ganhos dos motoristas pela intermediação, mas esse desconto não é claramente informado.
Custos altos
Segundo o TST, os custos mensais de um motorista que usa veículo próprio chegam a R$ 5.566, e para quem utiliza carro alugado, R$ 5.706. Os cálculos consideram 22 dias de trabalho por mês, com jornadas de oito horas diárias e uma velocidade média de 25 km/h em áreas urbanas.
Entre os gastos estão combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguros, tributos, pacotes de internet móvel, multas e alimentação. A média semanal de trabalho dos motoristas de aplicativo é de 44,8 horas.
Liberdade aparente
O presidente do TST, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, afirmou que a ideia de “liberdade empreendedora” é um pretexto que esconde a violação dos direitos dos trabalhadores.
“O trabalho nas plataformas digitais apresenta precarização, jornadas excessivas, baixos salários e forte controle por algoritmos”, declarou.
A verdade por trás
Em entrevista, o cientista político Leonardo Sakamoto comentou que motoristas de aplicativo caíram na ilusão de serem empreendedores independentes, enquanto as plataformas retêm grande parte dos lucros e pagam menos do que os profissionais gostariam.
Esse cenário difícil se reflete no caso de Bárbara Sousa, que está no ramo há quatro anos.
“Tudo sai do nosso bolso. É praticamente impossível não se endividar. Não me vejo trabalhando assim pelos próximos cinco anos”, conta.

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