Brasil
Manifesto de mulheres negras para eleições 2026
“Levanta povo, cativeiro já acabou!”. Este verso da canção “Cangoma me Chamou”, da cantora Clementina de Jesus, embala a mobilização de ativistas e lideranças negras em Brasília, no lançamento do Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026, coordenado pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).
O manifesto visa a criação de um sistema político baseado no Bem Viver, que priorize justiça, equidade, solidariedade e dignidade nas decisões e políticas públicas.
A proposta do feminismo negro destaca a emancipação, inclusão e participação ativa das mulheres pretas e pardas na política, seja como eleitoras, lideranças territoriais, candidatas a cargos políticos ou em espaços de poder a partir de 2027, com visão para o futuro.
O manifesto ressalta que mulheres negras não devem ser vistas apenas como receptoras de políticas para reduzir desigualdades, mas sim valorizadas por sua capacidade de gestão e ideias. Sua presença em casas legislativas e cargos executivos é prioridade.
Isabel Faroni, diretora do Instituto Akanni e representante da Região Sul na articulação, afirma que é essencial que as vozes negras sejam ouvidas. O manifesto propõe uma sociedade justa, solidária e pautada no cuidado mútuo.
Pacto do Bem Viver
Jolúzia Batista, coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), explica que o manifesto clama por igualdade, justiça e reparação para superar desigualdades geradas por séculos de escravidão no Brasil.
A articulação tem desenvolvido plataformas políticas com diretrizes para candidatos e governantes, permitindo monitorar e cobrar efetividade das propostas, reforçando a participação política das mulheres negras.
Candidatas negras e sua representatividade
O manifesto destaca a persistência do racismo e sexismo nas eleições brasileiras e propõe enfrentá-los, criticando a margem baixa de recursos para candidaturas negras provenientes de fundos eleitorais.
Durante o evento em Brasília, as ativistas lançaram a hashtag #EuVotoEmNegra, campanha de incentivo à representatividade das mulheres negras na política.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas eleições de 2026, as candidaturas de mulheres pretas correspondem a 6% e as pardas a 12,2%, percentuais distantes da participação populacional negra no país, que é de 28,2%.
Nádia Estela Ferreira Mateus, promotora de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, destaca a baixa presença de servidoras negras e diz que o manifesto é uma convocação à transformação da sociedade, reforçando a importância da democracia, justiça racial e direitos previstos na Constituição Federal.
Contexto político e desafios
As mulheres negras denunciariam a existência de uma “guerra híbrida” para corroer direitos humanos e sociais, especialmente dos grupos marginalizados, incluindo mulheres negras, população LGBTQIA+, comunidades tradicionais e de periferia.
Janira Sodré, coordenadora executiva da AMNB, alerta sobre o “tecno autoritarismo” das redes sociais, que restringe o acesso a informações políticas e distorce debates públicos.
Ela também menciona ataques a serviços públicos, servidores, além da atuação de milícias e grupos armados em territórios majoritariamente negros, assim como a disputa por apoio em comunidades pobres via estratégias religiosas e pastorais.
A AMNB espera que os eleitos assegurem bem-estar social por meio da oferta de serviços e políticas que garantam direitos às comunidades negras.
Construção coletiva e futuro das gerações
O lançamento do manifesto reuniu mulheres negras de diversas gerações para fortalecer a ocupação de espaços estratégicos de decisão.
Caiene Reinier Freitas, mestranda e engenheira ambiental e sanitarista, bolsista do Instituto Baobá, que apoia causas raciais, vê essa união como incentivo para avançar nas políticas públicas, além de denunciar a violência sofrida por mulheres trans e travestis no Brasil.
Ela destaca que a presença dessas mulheres em universidades, parlamentos e na política é vital para consolidar a representatividade das múltiplas formas de ser mulher.

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