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Não Suportamos Mais o Tédio, Afirma Autora de Nação Dopamina
Um semáforo fechado, uma fila no banco, esperar pelo elevador. Para muitas pessoas, esses breves momentos de vazio viraram quase impossíveis de suportar. Instintivamente, a mão busca o celular antes mesmo que o tédio apareça.
Não é questão de paciência, mas sim o resultado de anos treinando o cérebro para evitar o vazio. Esse fenômeno da era tecnológica, segundo a psiquiatra americana Anna Lembke, está transformando silenciosamente como lidamos com prazer, dor e o simples ato de não fazer nada.
Professora na Universidade Stanford e referência global em compulsões e dependências, Anna Lembke escreveu o best-seller “Nação Dopamina”, onde compara o smartphone a uma seringa moderna, que fornece doses constantes de dopamina.
Para ela, vivemos numa sociedade saturada de estímulos e isso cobra um preço neurológico, causando ansiedade e dificuldade para sentir prazer em coisas simples.
Em entrevista exclusiva à Folha de Pernambuco, Anna explica por que o cérebro vê prazer e dor como dois lados de uma mesma moeda e como suportar o tédio pode ser o melhor caminho para recuperar criatividade, tempo e sentido.
Folha de Pernambuco: Por que estamos programados para fugir do tédio?
Anna Lembke: A existência constante de distrações torna mais fácil escapar dos momentos vazios ou desconfortáveis. O fácil acesso ao smartphone aumentou o risco de dependência para todos.
Folha: Por que ficar sem estímulos pode ser tão difícil?
Anna: O prazer e a dor são processados juntos. Com tanta busca por prazer, o cérebro reduz os neurotransmissores do bem-estar para se adaptar. Isso faz com que precisemos de mais estímulos e quanto paramos, sentimos abstinência. Assim, o simples tédio se torna desconfortável e perdemos a tolerância a ele.
Folha: Como funciona o “detox de dopamina”?
Anna: Parabenizo a Geração Z que tenta se desconectar para reaprender a se conectar consigo mesma. Na clínica, quatro semanas sem estímulos são geralmente necessárias para resetar os processos cerebrais e sentir melhora, embora os primeiros dias sejam difíceis. O termo “detox” é uma forma simples de falar sobre isso, pois a dopamina é uma substância essencial para a vida.
Folha: O tédio pode ser uma oportunidade?
Anna: Sim. Suportar o tédio constrói uma resistência mental ao desconforto. Após passar a ansiedade inicial, sentimo-nos mais calmos e conectados. No silêncio, experimentamos nossos pensamentos, o que pode gerar novas ideias e criatividade, algo raro no mundo digital.
Folha: Como a percepção do tempo muda com o tédio?
Anna: O consumo digital contínuo distorce nossa noção de tempo. Ao desconectarmos, o tempo parece desacelerar, o que pode assustar. Mas se nos mantivermos no momento, nossa fisiologia relaxa e surgem estados de fluxo e conexão orgânica, em vez da reatividade constante.
Folha: Como equilibrar uso da tecnologia sem se afogar em dopamina?
Anna: A tecnologia é uma ferramenta poderosa, mas usada como droga pode causar dependência. É preciso usar com moderação, evitando o uso para autoacalmar ou escapar. Estratégias ajudam, como excluir aplicativos, preferir textos em vez de vídeos, checar o celular após tarefas e limitar horários. O essencial é lembrar que a tecnologia deve servir como ferramenta, não como droga.
Folha: Qual o papel da honestidade radical no equilíbrio?
Anna: Ser completamente honesto sobre nossos hábitos fortalece o autocontrole e a consciência do que fazemos. Isso nos ajuda a fazer escolhas melhores. Na dependência, as pessoas muitas vezes negam o problema e criam um histórico de mentiras que consome muita energia. Abrir mão disso é libertador e pode ser o primeiro passo para buscar ajuda, pois admitir o problema nos tira da solidão.

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