Economia
Programa da OMC entrega 795 bi de dólares em ajuda a países pobres em 20 anos
O Aid for Trade, iniciativa mantida pela Organização Mundial do Comércio (OMC) para apoiar países em desenvolvimento a superar obstáculos no comércio internacional, completou duas décadas de existência e investiu US$ 795 bilhões nesse período, conforme relatório divulgado em Genebra, na sede da OMC, elaborado em conjunto com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Apesar do volume significativo de recursos, as nações mais necessitadas ainda apresentam participação baixa no mercado global.
De acordo com a OMC, o programa contribuiu para o crescimento das exportações em países em desenvolvimento. A fatia desses países nas exportações globais de bens aumentou de 38% em 2006 para 48% em 2024, enquanto nas exportações de serviços passou de 25% para 33% no mesmo intervalo.
Dos valores aplicados ao longo desses 20 anos, 38% foram destinados a países africanos, e 35% a países asiáticos.
Efeitos sobre os países menos desenvolvidos (LDCs)
Independente da região, os países menos desenvolvidos (LDCs) receberam 28% dos recursos investidos, de acordo com a classificação da OMC para as economias mais pobres do mundo.
“Pesquisas dos últimos 20 anos indicam que o Aid for Trade proporcionou impactos positivos no fortalecimento das exportações das economias beneficiadas”, destaca o relatório divulgado em 29 de junho.
No entanto, o aumento da participação dos países em desenvolvimento no comércio global reflete principalmente o crescimento das economias emergentes, como o Brasil — que, ao lado da China, se autodeclara como país em desenvolvimento na classificação da OMC.
Menor participação da América Latina
O Aid for Trade concentra seus esforços principalmente na África e Ásia. Na região das Américas, incluindo a América Latina, os desembolsos caíram 23% entre 2023 e 2024, totalizando US$ 3,1 bilhões, o que equivale a 6% do total global aplicado.
Embora o Brasil tenha papel relevante como doador, não há registros de contribuições pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores.
Segundo o documento da OMC e OCDE, mesmo após investimentos bilionários, os países menos desenvolvidos ainda possuem participação irrisória nas exportações mundiais, com 1% em bens e 0,5% em serviços.
Zhang Xiangchen, vice-diretor-geral da OMC, reconheceu que o progresso no comércio exterior entre países em desenvolvimento tem sido desigual: “Enquanto testemunhamos alguns casos de sucesso, não houve expansão qualitativa significativa das exportações dos países mais pobres. É necessário intensificar esforços para aumentar a participação dessas economias no comércio global.”
Redução de recursos dos países ricos para ajuda
Na abertura de uma conferência de avaliação do Aid for Trade em Genebra, Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC, alertou sobre a redução dos fundos de ajuda humanitária provenientes de países ricos desde 2025, o que demanda adaptação do programa.
“Precisamos refletir sobre como aprimorar nossa atuação, especialmente em prol dos países mais pobres. O Aid for Trade deve evoluir”, afirmou Okonjo-Iweala.
A diretora-geral sugeriu que o programa concentre maior atenção nos LDCs e amplie parcerias com fontes privadas de financiamento e auxílio: “Os recursos públicos sozinhos não são suficientes. Devemos pensar em como eles podem estimular outras fontes, como a diminuição dos riscos para o capital privado.”

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