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Venezuela reconhece morte de preso político quase um ano depois
A Venezuela admitiu na quinta-feira (7) o falecimento do detento político Víctor Hugo Quero Navas, nove meses após sua morte e depois de mais de um ano desaparecido, conforme relatado por seus familiares.
Quero, de 51 anos, foi excluído da anistia promovida pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, segundo sua defesa. Sua mãe, Carmen Navas, buscou incessantemente por ele sem conseguir vê-lo durante a detenção.
Carmen foi levada na tarde desta quinta-feira por agentes do Ministério dos Serviços Penitenciários ao cemitério Parque Memorial Jardim La Puerta, em Caracas, local onde seu filho foi sepultado, conforme confirmou um jornalista da AFP.
Ao depositar flores no local indicado, a mãe, 81 anos, solicitou um exame de DNA para confirmar a identidade do corpo.
O Ministério dos Serviços Penitenciários informou em comunicado que Quero faleceu em 24 de julho de 2025, próximo à meia-noite, devido à insuficiência respiratória, após ser transferido para o Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo, em Caracas, por apresentar hemorragia digestiva superior e febre alta.
O Ministério Público venezuelano anunciou a abertura de uma investigação criminal na noite de quinta-feira, incluindo a exumação rápida do corpo.
O túmulo, marcado por algumas pedras e uma placa de ferro enferrujada em um terreno vazio, traz o nome completo do detento junto ao de uma mulher, com a data da morte registrada como 27 de julho de 2025, discrepando do comunicado oficial.
Em janeiro, organizações de direitos humanos relataram cerca de 200 casos de desaparecimento forçado na Venezuela, semanas após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro por forças americanas.
A vencedora do Prêmio Nobel da Paz venezuelana, María Corina Machado, declarou nas redes sociais que tais ações configuram não só uma tragédia, mas um crime contra a humanidade cometido com plena impunidade.
Após a captura de Maduro, a presidente interina instaurou uma lei de anistia para libertar presos políticos. Desde janeiro, 776 detentos políticos foram liberados, dos quais 186 após a promulgação da lei em fevereiro, conforme dados da ONG Foro Penal.
Caso preocupante
De acordo com o Ministério dos Serviços Penitenciários, Quero não forneceu informações sobre parentes próximos e nenhum familiar solicitou visita formal.
Frequentemente, familiares ficam meses sem notícias dos detidos e tentam, sem sucesso, obter informações das autoridades, indo de prisão em prisão. Às vezes, só sabem de algo através de visitas a outros presos.
O comunicado ressalta que o detento foi sepultado formalmente em 30 de julho de 2025, conforme protocolos legais, apesar da ausência de familiares.
Quero, comerciante de 51 anos, foi preso em 3 de janeiro de 2025 sob acusações de terrorismo.
Alfredo Romero, diretor da ONG Foro Penal que defende presos políticos, classificou o caso como gravíssimo, destacando a falta de comunicação oficial e a busca angustiante da mãe por informações.
O advogado e defensor de direitos humanos, Eduardo Torres, também ex-presidiário político, afirmou que o desaparecimento forçado e a violação do direito à vida representam crimes contra a humanidade.
Segundo ele, embora a morte já fosse conhecida por companheiros de prisão, a confirmação oficial tardia agrava a situação.
Desde 2014, foram registradas 19 mortes de presos políticos sob custódia estatal na Venezuela, de acordo com o monitoramento do Foro Penal, que contabiliza 454 presos políticos no país até o fim de abril.

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