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Economia

Juros pressionam a dívida mais que gastos públicos, dizem economistas

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Os gastos públicos não são os principais culpados pelo aumento dos juros e da dívida pública no Brasil. Na verdade, são os juros elevados pagos pelo governo, que consumiram R$ 1 trilhão em um ano, que pressionam a dívida, prejudicando a oferta de bens e serviços produtivos, ao mesmo tempo que geram grandes lucros para os bancos.

Três economistas consultadas pela Agência Brasil contestam a ideia comum de que os juros altos são uma resposta aos gastos públicos e necessários para controlar a inflação.

Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que os juros são o principal fator para o aumento da dívida pública, e não os gastos primários, como pagamento de funcionários e serviços públicos.

“É uma hipocrisia dizer que os juros altos são uma consequência da dívida, pois são os próprios juros que a causam. O déficit primário tem um impacto menor na dívida”, explicou a doutora em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Nos últimos 12 meses até março, o Brasil gastou R$ 1,08 trilhão com juros, o que equivale a 8,35% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2026, a Dívida Bruta do Governo Central aumentou para 80,1% do PIB (R$ 10,4 trilhões), principalmente devido aos juros nominais, segundo o Banco Central.

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que o atual modelo macroeconômico que une altas taxas de juros e corte nos gastos públicos é uma decisão política que favorece o setor financeiro.

“É chocante usar um país do tamanho do Brasil como plataforma financeira, condenando 210 milhões de pessoas a uma vida cara e endividada para beneficiar um setor que emprega pouco e já lucra muito”, enfatiza.

Juros, dívidas e gastos

O endividamento das famílias no Brasil e o lançamento do programa Novo Desenrola reacenderam debate sobre os juros reais, que são os segundos mais altos do mundo, atrás apenas da Rússia.

Alguns economistas defendem que o Banco Central age em resposta aos elevados gastos públicos, que estimulariam a demanda e pressionariam a inflação. Assim, sugerem cortes nos gastos públicos, o que poderia prejudicar serviços essenciais como saúde, educação, segurança e direitos trabalhistas.

O próprio Banco Central, via Comitê de Política Monetária (Copom), recomenda disciplina fiscal e reformas estruturais para conter a dívida e a inflação.

Tese alternativa

Por outro lado, um grupo de economistas argumenta que os gastos públicos são necessários para proteger os mais pobres e estimular a economia, e que os juros devem ser reduzidos, pois beneficiam apenas o mercado financeiro.

Para essa corrente, a inflação deve ser controlada estimulando a oferta, não apenas diminuindo a demanda como faz a taxa Selic. O Banco Central estima que cada aumento de 1 ponto percentual da Selic eleva a dívida em mais de R$ 50 bilhões.

Maria Malta defende que para reduzir a dívida pública é fundamental cortar os juros, pois eles são o maior custo do governo. Cortar gastos públicos, segundo ela, pode piorar o crescimento econômico, aumentar o desemprego e, consequentemente, a dívida, por reduzir a receita governamental.

A especialista também ressalta que não é adequado comparar o Estado a famílias ou empresas, já que o Estado emite sua própria moeda e controla sua taxa de juros.

Estímulo à oferta

Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), reforça que a dívida pública vem crescendo principalmente devido aos juros.

“O governo gasta demais pagando juros. É preciso proteger a população vulnerável e garantir o crescimento da capacidade produtiva, não apenas beneficiar o setor financeiro”, afirma.

Ela reconhece que juros altos controlam a inflação, mas alerta para seus custos sociais elevados.

“Quem paga esses juros são pessoas que precisam do dinheiro para necessidades básicas, enquanto quem lucra são os do mercado financeiro. Isso é o que está errado”, completa.

Maria Lourdes avalia que a inflação deve ser combatida estimulando a produção, mas os juros altos dificultam esse crescimento, prejudicando a oferta no médio e longo prazo.

Gastos públicos

Sobre a ideia de que cortes nos gastos públicos podem reduzir os juros, Maria Mello de Malta argumenta que o Estado não pode simplesmente reduzir gastos em saúde, educação e aposentadoria, pois esses são determinantes demográficos e sociais.

Juliane Furno lembra que o Estado brasileiro gasta mais que outros países porque optou por oferecer serviços públicos universais como saúde e educação.

A ideia de que cortes e privatizações resolveriam o endividamento é vista como ideológica por Maria Mello de Malta, que argumenta que privatizar significa também abrir mão dos lucros dessas empresas para o Estado, como ocorreu com a Eletrobras.

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