Brasil
Nova busca por ouro ameaça terras da Amazônia
Bepdjo Mekragnotire, líder indígena, se prepara novamente para guiar seus guerreiros na expulsão dos garimpeiros ilegais do território kayapó, situado na floresta amazônica do Brasil.
Com seu cocar vermelho, Bepdjo compartilhou que redobrou esforços contra os invasores na Terra Indígena Baú, no Pará, quatro anos após ter expulsado quase 200 garimpeiros.
“Os garimpeiros são obstinados, entram mesmo assim, pois o preço do ouro está muito alto”, relatou Bepdjo, de 45 anos, na aldeia Pykany, próxima ao Baú.
“É arriscado, mas é necessário expulsá-los para que não continuem invadindo.”
O ouro, um porto seguro econômico em tempos incertos, alcança valores históricos, aumentando a pressão sobre áreas protegidas da floresta.
Este impulso tem levado garimpeiros ilegais a avançar em áreas antes preservadas, como o Baú.
Em uma recente ação, Bepdjo e seus guerreiros encontraram-se com garimpeiros armados numa canoa, expulsando 24 deles.
A Rede Xingu+, formada por 53 grupos indígenas, ribeirinhos e organizações civis da bacia do rio Xingu, alertou as autoridades sobre o crescente risco de conflito armado e solicitou apoio.
Bepdjo está impaciente com a situação: “Não sabemos exatamente quantos garimpeiros estão dentro da terra, só percebemos quando chegamos lá.”
Jair Schmitt, presidente interino do Ibama, afirma que o órgão foca nos territórios em situações críticas, não conseguindo estar presente em todas as regiões.
Nas profundezas da floresta
Especialistas destacam que as terras indígenas são barreiras essenciais contra o desmatamento e as mudanças climáticas.
Vistos de cima, por voos do Greenpeace, os impactos do garimpo são evidentes: áreas devastadas terminam onde começam os territórios indígenas, que ainda mantêm suas florestas preservadas.
Segundo a ONG Amazon Mining Watch, entre 2018 e 2025, o garimpo afetou 223 mil hectares no Brasil, sendo cerca de 80% dessas áreas exploradas ilegalmente.
Desde o início do governo Lula em 2023, houve uma intensificação na repressão ao garimpo clandestino, contrastando com o governo anterior, que foi acusado de promover impunidade na Amazônia.
Contudo, os criminosos do garimpo adaptaram suas operações, utilizando maquinário pesado e até aviões para continuar suas atividades.
Nilton Tubino, coordenador do governo para a proteção indígena, confirma que esta nova fase do ouro tem impulsionado o garimpo ilegal ainda mais para o interior da selva, exigindo longas caminhadas para alcançar os acampamentos.
Schmitt destaca que o principal obstáculo é combater o crime organizado, que tem ampliado sua presença na atividade.
Novo cenário do garimpo
O Instituto Escolhas revelou que o Brasil produziu 71 toneladas de ouro em 2025, exportadas principalmente para Canadá, Suíça e Reino Unido.
O país desenvolve nova legislação para rastrear o ouro produzido.
Larissa Rodrigues, do Escolhas, explica que devido à repressão interna, o ouro tem sido contrabandeado através de países vizinhos.
O Greenpeace denunciou a existência de “minas fantasma”, locais com permissões legais, mas sem operações aparentes, que são usados para lavagem do ouro extraído ilegalmente.
Danicley de Aguiar, do Greenpeace Brasil, ressalta que o ouro retirado das áreas protegidas entra em circulação por meio desses esquemas fraudulentos.
Fernando Lucas, presidente da Federação de Cooperativas de Garimpeiros do Pará, lamenta a criminalização dos garimpeiros e pede um modelo administrativo que permita a operação legal, enfrentando a burocracia atual.
Conflitos internos
Bepdjo enfrenta também divisões dentro de seu próprio povo, com alguns membros apoiando o garimpo ilegal, incluindo seu antecessor.
Devido a conflitos, alguns moradores migraram para o lado oposto do rio.
Takagmoro Kaiapo, 25 anos, filho do ex-cacique, revela que jovens são tentados pelo dinheiro e promessas feitas pelos garimpeiros, como carros, mulheres e negócios.
Essa tentação pode levar jovens sem reflexão a apoiar atividades ilegais, ameaçando a unidade do povo kayapó.


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