Economia
CEO da Vale aponta desafios e alerta atraso do Brasil na disputa global por minerais essenciais
O Brasil possui uma das reservas minerais mais vastas e diversificadas do mundo, porém vem perdendo espaço para concorrentes diretos no mercado.
Essa foi a análise principal apresentada pelo Gustavo Pimenta, CEO da Vale, durante o Fórum LIDE Mineração, em São Paulo.
Ele destacou a urgência de o país se reposicionar na disputa mundial por minerais críticos e terras-raras, insumos vitais que definem a transição energética e o avanço tecnológico.
— Esta indústria tem uma grande vantagem sobre outras: não falta demanda, que é praticamente ilimitada. Nosso desafio é garantir a oferta e trazer esses minerais ao mercado. A demanda vai crescer de cinco a seis vezes nos próximos vinte anos, e precisamos acompanhar esse ritmo — ressaltou Pimenta.
Para ilustrar o descompasso do Brasil, o executivo comparou: em 2010, Brasil e Austrália produziam volumes equivalentes de minério de ferro, cerca de 400 milhões de toneladas. Quinze anos depois, a Austrália chegou a 1 bilhão de toneladas, enquanto o Brasil permaneceu no mesmo nível.
Dentre as prioridades, o CEO insistiu na importância de um licenciamento eficiente aliado ao rigor ambiental, formação de uma cadeia mineral integrada e estabilidade no ambiente de negócios.
Ele apontou o desconhecimento do subsolo como uma grande barreira, já que apenas 28% do território brasileiro é mapeado geologicamente, contra mais de 70% no Chile e na Austrália.
Gustavo Pimenta concluiu dizendo que, se o Brasil implementar as medidas necessárias e aumentar sua produção de acordo com seu potencial nos próximos dez anos, a arrecadação de impostos e royalties pode saltar dos atuais R$ 74 bilhões para R$ 130 bilhões.
Esse avanço também poderia gerar mais de 2 milhões de empregos em toda a cadeia produtiva.
Burocracia e licenciamento
O vice-presidente técnico da Vale, Rafael Bittar, comentou sobre a longa maturação dos projetos, que pode levar de sete a quinze anos desde a prospecção até o início da operação.
Ele sugeriu a criação de forças-tarefa exclusivas para grandes projetos, envolvendo comunidades e governo desde o início para acelerar as aprovações.
— A mineração é uma atividade complexa. Minerais críticos envolvem milhares de toneladas, enquanto minério de ferro e cobre lidam com milhões. São cadeias distintas e aplicar a mesma regulamentação para todas pode limitar nosso potencial. Mudar essa realidade no Brasil levará tempo — alertou Bittar.
A ex-ministra da Agricultura e conselheira da Sigma Lithium, Kátia Abreu, criticou a insegurança jurídica causada por órgãos de controle, que frequentemente questionam licenças já concedidas, afastando investidores.
— Não podemos permitir que um único agente ambiental paralise empresas que geram milhares de empregos e faturam bilhões. Nos EUA, quando ações públicas são perdidas, o autor arca com os custos. Aqui, o processo é repetitivo e sem responsabilidade — afirmou Kátia Abreu.
Projeto de lei dos minerais críticos
O deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), relator do projeto que cria o Marco Legal dos Minerais Críticos e Estratégicos, destacou o trabalho do Congresso para melhorar o ambiente de negócios.
Ele mencionou a aprovação de um licenciamento especial, destinado a novos empreendimentos focados na transição energética.
Kátia Abreu elogiou incentivos de crédito e fundos garantidores, mas questionou regras que restringem a iniciativa privada, o que foi respondido pelo deputado.
Arnaldo Jardim explicou que limites como o prazo de pesquisa de campo visam combater especulação e incentivar o processamento interno.
— O contrato de fornecimento deve contemplar produtos beneficiados, não apenas a commodity bruta, para estimular o beneficiamento local — esclareceu o parlamentar.
O CEO da Vale reforçou que superar os gargalos estruturais é fundamental para o Brasil assumir liderança na economia sustentável.
— Vejo muita oportunidade positiva. A mineração pode industrializar o país, preservar o meio ambiente e liderar a transição energética. Mas para isso, precisamos trabalhar juntos e avançar nessas pautas — concluiu Gustavo Pimenta.

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