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Corais mostram aumento do El Niño com o aquecimento do planeta

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Estudos realizados com esqueletos de corais que datam de mil anos atrás indicam que os episódios de El Niño estão se tornando mais intensos à medida que a temperatura global sobe, trazendo sérias consequências em um futuro cada vez mais afetado pelas alterações climáticas, conforme pesquisa divulgada nesta quinta-feira (27) na revista Science.

Atualmente, um episódio de El Niño está ganhando força no Pacífico equatorial e pode se tornar o mais intenso já registrado, ultrapassando eventos históricos como os de 2015, 1997 e 1982, segundo previsões científicas.

Espera-se que seu auge ocorra no final do ano, estimulando uma onda de calor global recorde em 2027. Seus efeitos já são perceptíveis desde a América Central, afetada por seca severa, até a Indonésia, onde contribui para grandes incêndios florestais.

Julia Cole, pesquisadora da Universidade de Michigan e principal autora do estudo, explicou à AFP que antes deste trabalho não se tinha certeza disso, mas agora se sabe que, no Pacífico oriental, eventos extremos de El Niño são raros nos últimos mil anos e estão muito acima dos níveis pré-industriais.

Os especialistas geralmente concordam que os impactos climáticos globais do El Niño se somam aos efeitos das mudanças climáticas, intensificando as chuvas em certas regiões e agravando a seca e o calor em outras áreas.

Um olhar para o passado

Embora vários eventos intensos de El Niño tenham ocorrido no final do século XX e início do XXI, os registros por satélite são recentes, disponíveis apenas desde a década de 1980. Dados anteriores, coletados por navios, eram poucos e insuficientes, explicou Cole.

Por isso, paleoclimatólogos usam indicadores indiretos, como corais, que funcionam como arquivos históricos climáticos.

Nas ilhas Galápagos, um arquipélago vulcânico próximo à costa do Equador e região central da influência do El Niño no Pacífico oriental, existe uma grande coleção de corais vivos e fossilizados.

Esses corais crescem cerca de um a dois centímetros por ano, e das amostras retiradas em escala milimétrica, a equipe conseguiu reconstruir registros mensais da temperatura ao longo do último milênio.

A composição química dos esqueletos dos corais, especialmente a proporção entre estrôncio e cálcio e as variações de oxigênio, reflete as condições ambientais em que se formaram.

Os resultados indicam que as oscilações ligadas aos ciclos do El Niño-Oscilação do Sul (Enso) foram significativamente menores entre os anos 1000 e 1850, período pré-industrial. Essas oscilações começaram a aumentar no final do século XIX e tiveram um crescimento marcante nos últimos 40 anos.

Ao comparar os dados com simulações climáticas do período pré-industrial, a equipe concluiu que os aumentos observados superam qualquer variação que possa ser atribuída apenas a fenômenos naturais.

Consequências importantes

Julia Cole ressalta que o fortalecimento do El Niño ocorre paralelamente ao aquecimento global, sugerindo uma ligação com o aumento das temperaturas provocado pelas atividades humanas e a queima de combustíveis fósseis.

Ela destaca que isso traz grandes impactos para a população, pois o El Niño é responsável por diversos eventos extremos e riscos climáticos.

Andrew Dessler, climatologista da Universidade Texas A&M que não participou do estudo, enfatiza a necessidade urgente de abandonar os combustíveis fósseis e propor fontes de energia renováveis que sejam seguras para o clima.

A pesquisa conclui que a variabilidade do Enso é hoje aproximadamente 36% maior no Pacífico equatorial oriental do que na era pré-industrial, devido principalmente à maior intensidade dos episódios de El Niño.

Isso não significa que cada evento individual seja 36% mais forte, mas que a variabilidade do sistema oceano-atmosfera em geral aumentou, incluindo suas fases quentes e frias.

Para Julia Cole, o estudo fecha uma lacuna importante na compreensão sobre os efeitos do aquecimento global no fenômeno El Niño.

“Os corais são uma janela para o passado, não para o futuro”, comenta a cientista. “Entretanto, podemos afirmar que essa tendência está em curso e a observamos todos os dias atualmente.”

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