Brasil
Jingles políticos com IA crescem nas redes, facilitam testes econômicos e antecipam campanhas
Não havia passado uma semana do anúncio da nova forte tarifa americana quando a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, divulgou um jingle nas redes sociais afirmando que o Pix seria um legado de Jair Bolsonaro, apesar de o ex-presidente não ter participado de nenhuma etapa do desenvolvimento do sistema.
Esse episódio só foi viável graças ao avanço da inteligência artificial e evidencia uma tendência no cenário político, segundo publicitários e artistas consultados pelo GLOBO: a criação rápida e segmentada de conteúdos, impulsionada pela popularização de plataformas de IA acessíveis.
Em vez de jingles elaborados e marcantes, como os que fizeram história, hoje observam-se diversos produtos segmentados, muitas vezes produzidos antecipadamente, que buscam se tornar virais nas redes sociais.
— É possível criar materiais específicos para um tema hoje, outro para segurança amanhã, e depois sobre saúde, alinhado ao que a mídia destaca, de forma estratégica. Isso não quer dizer qualidade, mas atende a demanda. Em termos de velocidade, é incomparável, mas a maioria dessas músicas é descartável — comenta o compositor Paulo César Bernardes, conhecido como PC, que participou de várias campanhas tucanas desde os anos 1990.
Na campanha do Paulo Maluf para prefeito de São Paulo em 1992, por exemplo, foi necessário um jingle para cada bairro, um trabalho que exigiu muitos recursos e tempo. Hoje, com a IA, esse processo poderia ser concluído em apenas dois dias.
Marqueteiros, artistas e produtores contam agora com plataformas que, em poucos segundos, geram várias versões de músicas, oferecem feedback instantâneo e até criam vozes, instrumentos ou letras, facilitando a criação dos jingles.
A popularização dessas ferramentas também transforma a dinâmica eleitoral, com apoiadores se tornando produtores de jingles e não mais apenas profissionais do marketing.
O fenômeno não é totalmente novo, mas a facilidade de uso das plataformas permite que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento musical, crie jingles rapidamente, o que aumenta a oferta e diminui a originalidade.
O GLOBO testou uma dessas ferramentas e, em menos de cinco minutos, produziu uma música para um candidato fictício, demonstrando o potencial e a democratização do processo.
— A inteligência artificial faz um trabalho impressionante, mas o desafio é saber utilizá-la adequadamente. Muitos jingles gerados são genéricos, longos e sem apelo popular. Produzir muitos jingles acaba prejudicando, pois o eleitor não decora. O ideal é uma música, uma letra em diferentes ritmos — avalia o marqueteiro Paulo de Tarso, que criou o famoso “Lula Lá” em 1989.
Especialistas concordam que a IA é uma ferramenta valiosa que vai modificar parte do processo, impactando músicos e preços, mas nunca substituirá a criatividade humana. Para Paulo César Bernardes, a diferença estará na intenção e na percepção humana que orienta a IA.
Lázaro do Piauí, compositor de trilhas sonoras emblemáticas como “Deixa o Homem Trabalhar” para a campanha presidencial de 2006, critica os jingles produzidos por IA, afirmando que são padronizados, com vozes e melodias repetitivas e sem emoção.
Ele relata que muitas vezes é procurado para aprimorar jingles feitos por IA, onde os erros comuns são músicas longas para redes sociais e falta de adequação ao cargo pretendido, fatores que comprometem a identificação com o eleitor.
— Criar um refrão que fique na cabeça da pessoa é difícil. Com a IA, as pessoas produzem várias músicas diferentes, o que pode até funcionar nas redes, mas o eleitor não escolhe candidato por causa do jingle. Ele é importante para chamar atenção, mas não decisivo — explica.
Desde 2024, a popularidade da IA na produção de jingles cresceu significativamente, segundo o compositor e produtor musical Ramon Quadros, fundador da Jingle Online em 2010, empresa especializada em músicas personalizadas para campanhas eleitorais.
Curiosamente, alguns pré-candidatos hoje preferem jingles feitos de forma mais artesanal, e não genéricos produzidos por IA, demonstrando uma busca por diferenciação em meio à saturação.
— Hoje, todo mundo usa IA, o que causa poluição no mercado. É financeiramente viável para candidatos com poucos recursos, mas é importante decidir se deseja algo igual ao padrão ou algo exclusivo feito por músicos e produtores humanos — destaca Ramon Quadros.
Normas para uso da IA
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras para o uso da inteligência artificial pelas campanhas. Conteúdos criados com IA devem informar claramente e de forma acessível que foram produzidos ou modificados por essas tecnologias.
Além disso, é proibido divulgar ou reproduzir conteúdos eleitorais sintéticos que envolvam imagens, vozes ou manifestações de candidatos ou pessoas públicas 72 horas antes da votação e 24 horas após o pleito. Plataformas de IA também não podem recomendar candidatos, mesmo que os usuários solicitem.
Desde 2024, o TSE garante ainda o direito a compositores e artistas de retirar paródias ou jingles feitos sem autorização expressa, tendo em vista reclamações de artistas renomados contra o uso indevido de suas obras em campanhas eleitorais.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login