Notícias Recentes
Jingles políticos de IA dominam redes e antecipam campanhas com baixo custo
Não havia passado uma semana do anúncio do novo tarifaço americano quando a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência da República, divulgou nas redes sociais um jingle afirmando que o Pix seria um legado de Jair Bolsonaro, embora o ex-presidente não tenha participado de nenhuma fase do desenvolvimento do sistema.
Essa reação decorreu do desgaste gerado pelo governo Donald Trump, alinhado com a família Bolsonaro, que justificou a medida, entre outros motivos, por uma suposta concorrência desleal no mercado financeiro.
Esse episódio ilustra o avanço da inteligência artificial e revela uma tendência no meio político, de acordo com publicitários e artistas consultados pelo GLOBO: a geração rápida e segmentada de conteúdos a partir da popularização de plataformas de IA acessíveis.
Em vez de jingles tradicionais e elaborados que marcaram gerações, o que se vê são múltiplos produtos específicos, criados com agilidade, que buscam se tornar virais nas redes sociais e antecipar temas de campanha.
“É possível criar um conteúdo específico para um tema hoje e outro para segurança ou saúde amanhã, de acordo com a cobertura da mídia e estratégia”, afirma o compositor Paulo César Bernardes, conhecido como PC, que atuou em campanhas tucanas desde a década de 1990. Ele ressalta que a velocidade é imbatível, mas a maioria dessas canções tende a ser descartável pela objetividade e falta de permanência.
Na eleição de Paulo Maluf para prefeito de São Paulo em 1992, PC e sua equipe precisaram produzir jingles para cada bairro da cidade, um processo que consumiu muita energia e recursos. Atualmente, ele acredita que a mesma tarefa poderia ser feita em poucos dias com auxílio da inteligência artificial.
Atualmente, marqueteiros, artistas e produtores contam com plataformas que geram diferentes versões musicais em segundos, oferecem feedback instantâneo e conseguem suprir elementos como voz, instrumentos ou letras.
A popularização dessas ferramentas pode transformar as campanhas, com apoiadores amadores agindo como propagadores de jingles, algo que antes ocorria apenas com profissionais. Um exemplo anterior foi o sucesso de “O Homem Disparou”, música de estilo pisadinha criada por César Araújo, que virou febre nas eleições municipais de 2020.
Outro impacto esperado é o aumento da oferta de jingles, pois hoje não é necessário saber música ou escrever letras para criar facilmente jingles com ferramentas populares.
O GLOBO testou uma dessas plataformas e produziu, em menos de cinco minutos, uma música para o candidato fictício “Joãozinho da Galera” que poderia embalar comícios para a Câmara a partir de agosto.
“A IA faz um trabalho impressionante, mas é importante saber usá-la. Vejo jingles genéricos, muito longos e sem apelo popular. O lançamento industrial de 10 ou 15 jingles prejudica porque o eleitor não os decorará. O ideal é uma música e uma letra em diferentes ritmos”, avalia o marqueteiro Paulo de Tarso, criador do termo “Lula Lá” para a campanha do petista em 1989.
Especialistas concordam que a inteligência artificial será um suporte importante, impactando parte do processo, reduzindo custos e alterando a demanda por músicos, mas não substituindo o trabalho criativo humano. Paulo de Tarso destaca que a supervisão de alguém experiente em composição ainda é indispensável.
“O diferencial é a pessoa que dirige a IA, quem entende qual mensagem a música deve transmitir e escolhe o estilo correto, mesmo que não seja o esperado. Com o baixo custo, todos podem produzir uma qualidade antes inacessível”, acrescenta PC.
Lázaro do Piauí, compositor de trilhas para campanhas como “Deixa o Homem Trabalhar” (campanha do Lula em 2006), relata que produtoras oferecem hoje preços cerca de 30% menores para candidatos, mas os jingles feitos por IA tendem a ser padronizados e sem emoção, o que dificulta o impacto eleitoral.
Frequentemente, ele é procurado para aprimorar jingles feitos por IA, que costumam apresentar falhas como duração inadequada para redes sociais e falta de adequação ao cargo desejado, que requer maior identificação e empatia.
“Criar um refrão fácil de decorar já é difícil. Com IA, as pessoas fazem várias músicas diferentes, o que pode funcionar nas redes, mas não para o eleitor, pois o voto não depende do jingle, embora ele ajude a chamar atenção ao candidato”, avalia.
O aumento do uso de inteligência artificial na produção de jingles tem se intensificado desde 2024, segundo o compositor e produtor musical Ramon Quadros, fundador da Jingle Online, empresa que produz músicas para campanhas desde 2010 com atendimento digital e personalizado.
Ele relata que a utilização massiva da IA tornou o mercado saturado, levando pré-candidatos a buscar produções mais artesanais e originais, mesmo com custo maior.
“Todos usam IA hoje, deixando o mercado poluído. Para candidatos com poucos recursos, pode valer a pena, mas quem quer se diferenciar deve apostar em músicos e produtores humanos”, conclui.
Regras para o uso de IA nas campanhas
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu novas normas para a aplicação de inteligência artificial em campanhas eleitorais. Todo conteúdo produzido com auxílio dessas ferramentas deve claramente indicar que é fabricado ou manipulado por IA, informando a tecnologia utilizada de forma destacada e acessível.
Além disso, a Justiça Eleitoral proíbe a publicação e reprodução de conteúdos eleitorais sintéticos que envolvam imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas que antecedem a votação e nas 24 horas após o pleito, mesmo que gratuitos. Sites de IA também não podem recomendar candidatos, mesmo se requisitado pelo usuário.
Desde 2024, o TSE garante a compositores e artistas o direito de solicitar a retirada de paródias, incluindo jingles, que usem obras sem autorização expressa do autor para as campanhas eleitorais. Esse tipo de conteúdo gerou queixas de celebridades como Roberto Carlos, Caetano Veloso e Marisa Monte em anos anteriores.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login