Notícias Recentes
Laudo desconsidera pedido de socorro de jovem para não ser morto pela polícia
O laudo pericial relacionado à gravação onde o jovem João Victor de Jesus da Silva suplica para não ser abatido por policiais militares, em julho de 2024, na zona leste de São Paulo, não considerou o diálogo presente entre ele e os agentes. No documento, o perito José Carlos de Freitas Garcia Caldas limitou-se a constatar que o áudio apresenta sons da “movimentação da via pública”, local onde estão instaladas as câmeras.
Em junho, foi divulgado um vídeo captado por uma câmera externa da residência de João Victor. Neste, é possível ouvi-lo dizendo: “O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma” e mencionando seus filhos, de 7 e 6 anos. Um policial responde agressivamente: “Foda-se as crianças”. Após um longo diálogo, ouvem-se disparos de fuzil e comandos policiais para que a vítima largue a arma. A família acredita que houve uma tentativa de forjar um confronto, enquanto a versão oficial alega que João Victor teria resistido e atirado contra os policiais.
Posteriormente ao ocorrido, o Ministério Público de São Paulo requisitou nova perícia no áudio e um estudo da dinâmica dos fatos. O novo laudo, emitido em 3 de julho pelo Instituto de Criminalística, descreve as imagens registradas, mas sem detalhar o conteúdo do diálogo, enfatizando a movimentação de pessoas e a chegada da equipe de socorro.
Não há confirmação se uma nova gravação será efetuada, e o inquérito permanece em andamento.
Contexto da abordagem
A ação policial aconteceu em 31 de julho de 2023, durante o cumprimento de um mandado de homicídio. Sete policiais militares encapuzados foram registrados caminhando em formação tática na Rua Martins Soares Moreno, dirigindo-se diretamente à residência de João Victor, que não possuía ligação com o mandado. Enquanto parte dos policiais vigiava externamente, outros entraram na casa.
O que ocorreu internamente não foi filmado, mas o áudio captou os sete minutos de súplicas de João Victor para que pouparem sua vida.
Segundo o relato oficial, a vítima teria resistido e efetuado disparos contra os policiais, mas os sons capturados concluíram com os tiros que o atingiram fatalmente. João Victor foi imediatamente encaminhado ao Hospital Sapopemba, onde foi constatado seu falecimento.
Dependência química
Procurado pela Justiça por um roubo em 2022, João Victor enfrentava dependência química, agravada pelo consumo da droga sintética K9. Conforme relato de seu pai, Sergio Antonio da Silva, o jovem começou a vender seus pertences para sustentar o vício, deixando quase nada na pequena residência quando os policiais chegaram.
“Ele deu trabalho na juventude, mas havia superado, até se entregar às drogas nos últimos 3 a 4 anos. Eu tentei ajudá-lo, mas não consegui tirá-lo desse mal”, relatou Sergio. Ele destacou ainda que o filho não portava arma alguma, tendo vendido tudo devido à dependência.
Violência policial e estatísticas
A morte de João Victor de Jesus da Silva foi uma entre as 246 ocorridas por policiais militares em São Paulo no último ano. Levantamento aponta que pelo menos 85 das vítimas não estavam armadas, e 47 foram baleadas pelas costas. Apenas um policial morreu, vítima de tiro acidental por colega.
Para alcançar esse índice, a Polícia Militar efetuou 1.701 disparos, 459 deles contra pessoas desarmadas.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login