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PF investiga compra de ações com desconto para pagamento de dividendos a Ciro Nogueira

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Um pagamento de R$ 1 milhão realizado por uma das empresas ligadas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) despertou a atenção da Polícia Federal, que suspeita de que vantagens indevidas foram concedidas ao parlamentar por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

A investigação indica que a venda de ações de uma empresa relacionada ao ex-banqueiro foi usada como mecanismo para que o senador recebesse valores na forma de lucro distribuído aos acionistas, conhecido no mercado como “dividendos”.

Essa operação foi revelada em mensagens interceptadas pela PF e apresentadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para embasar a ação que teve Ciro como alvo. Em uma das mensagens, datada de 24 de janeiro de 2024, Vorcaro conversa com seu primo, Felipe Vorcaro, buscando uma maneira de repassar recursos de forma a parecer legítima.

“Preciso encontrar uma forma de gerar dividendos”, disse Daniel. A defesa do ex-banqueiro não se pronunciou, e o senador também não comentou.

Conforme a PF, Vorcaro tentou, com ajuda de seu cunhado, Fabiano Zettel, assegurar que os pagamentos acontecessem a uma pessoa física sem que a operação fosse detectada pelos sistemas de fiscalização dos bancos.

No fechamento do ano, empresas com acionistas avaliam lucros ou perdas e podem distribuir o lucro aos sócios em forma de dividendos, processo semelhante ao utilizado por companhias de capital aberto, como a Petrobras.

O pagamento investigado, de R$ 1 milhão, foi identificado por um alerta do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que monitora movimentações financeiras suspeitas. A PF suspeita que uma estrutura societária permitiu que a empresa ligada a Ciro Nogueira adquirisse participação nos negócios de Vorcaro com um desconto de 92%.

O negócio envolveu a venda de parte das ações da Green Investimentos, que até então pertencia integralmente ao fundo Green, ligado a Vorcaro. A CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa do senador, comprou 30% dessas ações, correspondendo à parcela que dá direito aos lucros futuros. A Green, por sua vez, detém participação na Trinity Energias Renováveis, atuante no setor elétrico.

O contrato, firmado em abril de 2024, estipulou o valor de R$ 1 milhão pela aquisição dos 30% da Green pela empresa do senador.

Porém, segundo a investigação, avaliações internas apontam que o valor total das ações era de R$ 43,5 milhões. Assim, os 30% valeriam aproximadamente R$ 13 milhões. Com um pagamento de apenas R$ 1 milhão, o desconto aplicado foi de 92,3%, cerca de 7,7% do valor real.

O relatório da PF destaca uma anormalidade na transação: geralmente, o pagamento deveria entrar no fundo que vende as ações, mas neste caso o valor foi depositado diretamente na empresa negociada, o que sugere uma operação artificial.

Para evitar fiscalização e exposição ao setor elétrico, o acordo foi mantido em um contrato de gaveta, sem registro público imediato, como indicado em outra conversa entre os primos Vorcaro interceptada pela PF.

Felipe Vorcaro ressaltou a necessidade de manter o negócio restrito a um instrumento particular para não alertar outros sócios da Trinity sobre a transação antecipadamente.

A PF apontou que o retorno do investimento foi quase imediato. Em julho de 2024, três meses após o contrato, Felipe Vorcaro informou a Daniel que receberam distribuição de lucros da Trinity no valor de R$ 2,4 milhões.

Considerando a parcela de 30% atribuída à empresa do senador, o montante recebido corresponderia a cerca de R$ 720 mil, valor próximo ao investimento inicial, indicando que o valor investido foi quase recuperado em curto prazo, de acordo com a Polícia Federal.

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