Brasil
8 em cada 10 mulheres muçulmanas sofrem islamofobia no Brasil
A islamofobia representa o preconceito, aversão, discriminação e intolerância contra o Islã. No Brasil, essa forma de violência é uma realidade constante na vida de muitas mulheres muçulmanas.
De acordo com a terceira edição do Relatório de Islamofobia no Brasil, produzido pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias) da Universidade de São Paulo (USP), aproximadamente oito em cada dez mulheres muçulmanas vivenciaram esse tipo de violência em território brasileiro.
O estudo reuniu depoimentos de 328 mulheres que compartilharam suas experiências e vivências pessoais.
Entre as brasileiras que converteram ao Islã, 88,1% relataram já terem passado por situações de preconceito, enquanto 80,4% das muçulmanas de nascimento também afirmaram ter vivido tais episódios.
Na comunidade muçulmana, chamam-se convertidas aquelas pessoas que adotaram a fé islâmica por meio de conversão.
Além disso, 75,6% das brasileiras muçulmanas desde o nascimento declararam ter sido tratadas como estrangeiras apenas pelo uso do lenço religioso.
Mansur Peixoto, pesquisador pernambucano e fundador do projeto História Islâmica, destaca que o preconceito religioso está profundamente enraizado na sociedade.
“Recuperar a memória histórica é essencial, pois o ódio não é inato. A presença muçulmana data desde 1500 no Brasil, mas o muçulmano ainda é frequentemente visto como um estrangeiro”, explica Mansur.
Quem são essas mulheres?
Não há um perfil único das vítimas de islamofobia. Os ataques atingem mulheres de diversas idades, origens e trajetórias profissionais. Em comum, muitas possuem alto grau de escolaridade e estão presentes em vários setores da sociedade.
Entre as muçulmanas brasileiras de nascimento, 60,8% têm ensino superior ou pós-graduação completos; entre as convertidas, esse percentual é de 46,7%.
“Nossa comunidade inclui mulheres de todas as idades, desde estudantes de medicina e cientistas até pessoas de diferentes nacionalidades como paquistanesas e senegalesas, além de brasileiras convertidas. Todas as que entrevistei já sofreram islamofobia, sem exceção. Algumas relatam até a rejeição por suas próprias famílias, por isso proporcionamos acolhimento”, conta Dulce Rocha, coordenadora da ala feminina do Centro Islâmico do Recife e professora de capoeira.
Essa violência acompanha essas mulheres em vários ambientes, principalmente nas ruas (relatado por 36,4% das convertidas e 54,3% das nascidas no Islã) e também na internet (30,9% e 41,3%, respectivamente).
Local de trabalho é outro cenário frequente de discriminação, mencionado por 19,7% das mulheres convertidas e 30,4% das brasileiras muçulmanas de nascimento.
Mansur Peixoto enfatiza que essas mulheres são insultadas, atacadas, afastadas do mercado de trabalho e forçadas a escolher entre a vida religiosa e sua permanência na sociedade.
Uso do hijab e a visibilidade da fé
Quanto mais visível a expressão da fé islâmica, maior a probabilidade de exposição à islamofobia.
O relatório define como “mulher muçulmana visível” aquela que é claramente identificada como muçulmana por escolhas de aparência e identidade, especialmente pelo uso do hijab, o véu islâmico.
Mansur Peixoto explica que, ao contrário da Europa, onde o preconceito pode se basear no fenótipo racial, no Brasil o preconceito recai sobre símbolos visíveis da religião. As mulheres com hijab são as mais visadas.
O véu é muitas vezes interpretado em contextos islamofóbicos como símbolo de ameaça ou incompatibilidade com a cultura brasileira. Para Dulce Rocha, esse olhar preconceituoso surge da ignorância.
“As pessoas não têm consciência de que somos brasileiras, trabalhadoras, mães e estudiosas”, afirma.
O estudo aponta que 41,2% das muçulmanas nascidas no Brasil sofreram agressões físicas ou verbais por usar o véu em público, incluindo puxões, tentativa de retirada forçada e até arremesso de objetos.
A subnotificação
Além da violência constante, o relatório chama a atenção para a subnotificação dos casos e a baixa confiança das vítimas nas instituições que deveriam protegê-las.
Apenas 10,4% das mulheres se sentem protegidas pelas leis brasileiras.
Mansur Peixoto ressalta que o ambiente para denúncias não é acolhedor, frequentemente levando a uma perseguição maior.
Entre as vítimas, 94% das mulheres convertidas e 91,3% das muçulmanas de nascimento que sofreram violência não registraram boletim de ocorrência.
Relatos indicam que, mesmo ao buscar ajuda, muitas enfrentam falta de testemunhas, descrença e desinteresse das autoridades, o que as desencoraja a buscar justiça.
O enfrentamento
O relatório também aponta que 83,7% das entrevistadas consideram que a sociedade não reconhece devidamente os impactos emocionais da islamofobia.
Mansur Peixoto afirma que a educação sobre o Islã é essencial para combater a violência e os estereótipos.
“O combate à islamofobia passa pelo entendimento do Islã tão profundamente quanto se compreende a própria religião de cada um”, declara o pesquisador.
Dulce Rocha destaca que o preconceito frequentemente é reforçado por generalizações relacionadas a casos de terrorismo.
“Quando ocorrem ataques, geralmente a religião da pessoa não é questionada, a não ser que a pessoa tenha nome ou ascendência árabe, e então já a rotulam de ‘terrorista’”, explica.

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