Economia
Julho para saída de capital estrangeiro no Brasil, mas futuro incerto no segundo semestre
Em julho, o Brasil viu uma pausa na saída significativa de capital estrangeiro que vinha ocorrendo nos meses anteriores. A Bolsa de Valores (B3) registrou uma entrada de R$ 2,558 bilhões, elevando o saldo acumulado no ano para R$ 36,406 bilhões, um valor 81% maior que o mesmo período do ano passado.
Apesar da entrada de recursos, essa recuperação não deverá ser contínua nem acelerada, principalmente por causa das incertezas econômicas internas e externas, incluindo as próximas eleições brasileiras.
Esse fluxo positivo contribuiu para a alta de 3,5% do Ibovespa em julho, o primeiro mês com resultado positivo desde fevereiro. O fundo EWZ, que é o principal índice de ativos brasileiros negociado em Nova York, teve valorização de 6,23%.
O mercado local foi estimulado por fatores como a retomada das tensões geopolíticas no Oriente Médio, a mudança global de investimento para fora do setor de tecnologia e o alívio nas curvas de juros. Os aumentos tarifários dos EUA sobre produtos brasileiros tiveram pouco impacto, devido às exceções feitas para exportações importantes.
O setor de petróleo foi o maior beneficiado deste movimento, refletindo-se nas ações da Petrobras, que valorizaram significativamente, e na Prio. Marcelo Nantes, CEO da Kosmos Capital Group, destaca que o aumento do preço do petróleo ajudou a reduzir o risco país e atraiu investimentos para as ações de produtores brasileiros.
William Jackson, economista-chefe da Capital Economics, considera provável que mais capital estrangeiro entre no Brasil, visto que o país é beneficiado pelos preços elevados de energia e pela diversificação de investimentos causada pela cautela no setor de tecnologia.
Os analistas Victor Natal e Mathias Venosa, do Itaú BBA, ressaltam que o Brasil surge como alternativa, apesar dos desafios fiscais e das taxas de juros elevadas, oferecendo uma bolsa negociada em múltiplos mais baixos e exposição a setores pouco ligados à tecnologia.
No âmbito doméstico, a redução da inflação gerou expectativas de cortes na taxa Selic, que foi diminuída para 14%. O Itaú BBA interpreta esse movimento como um sinal positivo para os mercados locais.
No entanto, o fluxo de capital estrangeiro não deve atingir os níveis excepcionais vistos até abril, por conta da prudência dos investidores frente a um cenário global e interno ainda cheio de incertezas.
Daniel Nogueira, da InvestSmart XP, observa que o movimento atual é mais resultado de uma realocação global do que uma mudança estrutural no Brasil, com a escalada do conflito entre Israel e Irã aumentando riscos e mantendo juros altos nas economias desenvolvidas.
Bruno Takeo, da S4 Consultoria, afirma que investidores estrangeiros ainda estão interessados no país, mas aguardam sinais claros para investir com convicção; o mercado tecnológico nos EUA também influencia esse comportamento.
Do ponto de vista político, a proximidade das eleições e questões fiscais são fatores que impactam as decisões dos investidores estrangeiros. William Jackson pondera que medidas de estímulo antes das eleições podem elevar preocupações fiscais, enquanto Marcelo Nantes destaca que o mercado vai monitorar o compromisso dos candidatos com a estabilidade fiscal.
Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, acrescenta que o foco passará a ser mais político do que técnico, com ajustes conforme sinais de disciplina fiscal e estabilidade institucional forem percebidos.
O cenário para o restante do ano permanece incerto. Segundo Daniel Nogueira, é quase impossível prever o fluxo de investimentos considerando as trajetórias indefinidas da inflação e juros, além das tensões geopolíticas globais que podem alterar rapidamente preços e relações econômicas, especialmente em commodities como o petróleo.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login