Economia
Aumento do preço do petróleo eleva custos e impacta inflação dos bens industriais
O conflito no Oriente Médio provocou um choque de oferta global que afetou o fornecimento de petróleo e insumos essenciais para várias cadeias produtivas, modificando a trajetória de queda dos preços em bens industriais, um segmento que antes gerava menos preocupação para economistas e o Banco Central.
Embora o impacto ainda esteja distante de pressionar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), os bens industriais começaram a apresentar aumento dos preços, que subiram 0,61% em abril, quase o dobro da taxa de 0,32% registrada no mês anterior — uma tendência prevista para continuar no segundo semestre, conforme analistas do mercado.
Em um período de 12 meses, a alta desses itens permanece abaixo da inflação geral, com 2,41% frente aos 4,39% do IPCA total, porém projeções indicam que pode chegar a quase 4% até o final do ano, diminuindo o papel desses bens como força contra a inflação. Em 2025, esse segmento registrou alta de apenas 2,39%.
Os bens industriais, que representam cerca de 23% da cesta consumida pelo IPCA, tiveram uma evolução estável nos últimos anos e na maior parte do primeiro semestre. Como são produtos comercializáveis, sujeitos às importações e exportações, seus preços mantêm forte correlação com o dólar, que se desvalorizou cerca de 9% frente ao real em 2026. Contudo, dados do atacado já sinalizam que essa estabilidade está chegando ao fim, mesmo com a queda da moeda americana.
Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, ressalta que o último Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), que mede a variação ao produtor, já indica reversão da estabilidade nos bens industriais. O núcleo industrial, que exclui itens voláteis, subiu 2,5% em abril — a maior alta para esse mês desde pelo menos 2010 — indicando que esses custos devem chegar ao consumidor em breve.
Matheus Dias, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV-Ibre), confirma que o aumento do preço do petróleo tem pressionado amplamente os índices de preços, elevando os custos industriais e logísticos.
Um destaque é o aumento expressivo no preço das embalagens plásticas, que teve alta de 33% para 38% entre março e abril. Mesmo sem influência cambial no momento, essa pressão reflete o impacto do conflito no Oriente Médio, aponta Andréa Angelo, que projeta alta próxima de 3,2% para bens industriais no IPCA até o fim do ano. “Em janeiro, esperávamos que esses itens ajudassem a conter a inflação, mas essa tendência mudou”, destaca.
Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, observa que o aumento de produtos de higiene pessoal representou dois terços do avanço dos bens industriais em abril em relação a março. Preços maiores das matérias-primas e fretes, junto com algum consumo resiliente devido a incentivos fiscais, como maior isenção do Imposto de Renda, podem sustentar essa alta, mesmo com a valorização do real frente ao dólar ajudando a moderar os impactos.
Secemski também identificou pressões maiores no início do ano em eletroeletrônicos e celulares, parcialmente atribuídas ao aumento do imposto de importação. Apesar de alguns desses aumentos terem sido revertidos, ainda afetam certos componentes eletrônicos.
O Barclays iniciou 2026 prevendo alta anual de 2,9% para bens industriais no IPCA, valor que já subiu para 3,8%, em contraste com os 5% previstos para o índice geral. Essa previsão considera maior participação da inflação desse setor no segundo semestre.
Para João Fernandes, economista da gestora Quantitas, grande parte da recente alta dos bens industriais resulta do aumento dos custos na cadeia do petróleo, mas outro fator importante é o comportamento econômico da China. O país vinha de uma desaceleração econômica e inflação baixa, que ajudaram a conter a inflação global nos últimos 18 meses.
Com a guerra no Oriente Médio, a China, altamente dependente da importação de petróleo do Golfo, começou a apresentar aumento generalizado da inflação, elevando os custos dos bens exportados, o que impacta preços maiores nos mercados emergentes.
Embora o índice dos bens industriais subjacentes — que exclui itens voláteis — permaneça controlado em 2,17% até abril, outras medidas indicam aumento constante, com uma média móvel trimestral anualizada de 3,64% em abril, superior aos 1,40% do fim do ano anterior. Isso sugere que, se as condições atuais se mantiverem, o acumulado dos bens industriais deve continuar crescendo.
Além disso, há expectativa de que a inflação em roupas comece a ser pressionada futuramente pelo preço do algodão, que ainda não teve efeito expresso. O petróleo aumenta o custo do poliéster, e como o algodão é substituto, sua demanda sobe, conforme explica João Fernandes.


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