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Bolívia: bloqueios diminuem após estado de exceção e acordo sindical

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O número de bloqueios nas rodovias da Bolívia diminuiu significativamente após um acordo firmado entre o governo e a Central Operária da Bolívia (COB) na sexta-feira (19), juntamente com o decreto de estado de exceção no sábado (20).

O Parlamento confirmou na madrugada de domingo (21) o estado de exceção, que autoriza a imposição de toque de recolher em áreas específicas e o uso das Forças Armadas para conter manifestantes. Esses bloqueios e protestos, que chegam a 50 dias, criticam as políticas do governo de Rodrigo Paz, consideradas liberais demais.

Nos momentos de maior tensão, mais de 80 bloqueios foram registrados, mas neste domingo o número caiu para 31, distribuídos entre La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz, conforme a Administradora de Estradas Bolivianas (ABC).

Ao longo do dia, os bloqueios diminuíram ainda mais, chegando a 12. A doutoranda em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), Alina Ribeiro, explicou que o prolongamento dos bloqueios causou escassez de alimentos e medicamentos, o que levou à diminuição dos protestos.

Alina Ribeiro também comentou que, embora o acordo não assegure a saída de Rodrigo Paz, representa uma solução que beneficia ambas as partes envolvidas.

Os protestos começaram em janeiro, aumentaram em maio e junho após a aprovação de uma controversa lei de terras, e pedem a renúncia do presidente, que está no cargo há apenas sete meses após duas décadas de governos de esquerda.

Em relação à prática dos bloqueios, Alina Ribeiro comentou que esta é uma tática histórica na Bolívia, originada na resistência contra a colonização espanhola, sendo eficaz para paralisar regiões, porém exigente para os manifestantes.

Acordo com a Central Sindical

Um dia antes do estado de exceção, Rodrigo Paz firmou um acordo com a COB, principal central sindical, que estava entre os grupos protestantes exigindo reajustes salariais e criticando o alto custo de vida.

Mario Argollo, presidente da COB, explicou que o acordo prevê um período de 90 dias para avaliar os compromissos do governo, pedindo o fim dos bloqueios para restaurar a paz no país.

O pacto inclui a não criminalização das reuniões, a não perseguição de líderes sociais e sindicais, e a criação de uma comissão conjunta para libertar líderes presos durante as manifestações.

Além disso, o governo se comprometeu a manter as empresas públicas estratégicas estatais e evitar a entrega de recursos nacionais a interesses privados, tanto nacionais quanto estrangeiros.

Rodrigo Paz manifestou sua satisfação com o acordo e destacou a intenção de fortalecer a mineração estatal e gerar empregos, sem privatizações e com cooperação contínua com a Corporação Mineira da Bolívia (COMIBOL).

Estado de exceção

No dia seguinte ao acordo, o presidente decretou estado de exceção, medida que vinha sendo preparada há semanas e foi aprovada pelo Parlamento.

Rodrigo Paz também acusou, sem apresentar provas, que os bloqueios são financiados pelo narcotráfico, utilizando discurso semelhante ao dos Estados Unidos para justificar a repressão.

Ele afirmou que o país enfrenta uma estratégia orquestrada para desestabilizar a democracia, caracterizando o movimento como uma tentativa de golpe fomentada pelo narcoterrorismo.

O governo atribui os protestos ao ex-presidente Evo Morales, que, por sua vez, declara que os movimentos são do povo boliviano — professores, mineiros, camponeses, indígenas e outros grupos — e que ele não os controla.

Divergências no movimento social

Algumas organizações continuam defendendo os bloqueios até a renúncia de Rodrigo Paz, como a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas “Bartolina Sisa”.

Recentemente, um encontro de camponeses na província de Ingavi, La Paz, reafirmou a continuidade das manifestações, criticando os líderes que desrespeitam o mandato popular e favorecem interesses estrangeiros.

Virgínia Antiñapa, líder da organização, denunciou assassinatos e perseguições recentes contra manifestantes e rejeitou as acusações do governo de que apoiam o partido de Evo Morales, afirmando que a luta é legítima e não politizada.

Alina Ribeiro comentou que os diferentes grupos envolvidos nos protestos são heterogêneos e apresentam dificuldades para chegar a um consenso sobre a continuação dos bloqueios, devido a divisões internas significativas.

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