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Bolívia libera dólar com cotação livre para enfrentar crise econômica
A partir de segunda-feira (29), a Bolívia adotou uma cotação livre para o dólar, encerrando 15 anos de taxa fixa estabelecida pelo governo em uma tentativa de atrair moeda estrangeira e aliviar a pior crise econômica do país em quatro décadas.
Nos últimos anos, a falta de moeda estrangeira causou desequilíbrios fiscais e monetários graves, além da expansão de um mercado paralelo de dólares usado pela população a taxas superiores às oficiais.
“Estamos ajustando a economia para que entre capital externo”, disse no domingo o presidente Rodrigo Paz, que decretou estado de exceção em 20 de junho após quase dois meses de bloqueios de estradas realizados pela oposição.
Uma comerciante de roupas de 42 anos em El Alto, um dos maiores mercados populares da América Latina, afirmou à AFP: “Agora o governo admite o valor que todos já pagávamos”. Ela pediu para manter sua identidade em sigilo.
Na feira localizada a cerca de 4.000 metros de altitude nos Andes, centenas de vendedores informais precisam importar seus produtos baseados na cotação do dólar paralelo, “que sobe sempre que há problemas políticos”, segundo ela.
De agora em diante, a cotação oficial será definida diariamente pela média das operações de compra feitas livremente no sistema financeiro.
O Banco Central iniciou o mercado com um novo dólar oficial a 9,73 bolivianos, valor próximo ao paralelo, representando uma desvalorização de quase 40% em relação à taxa de 6,96 bolivianos fixada desde 2011.
O ministro da Economia, José Espinoza, confirmou ao canal Unitel que estão em negociação com o Fundo Monetário Internacional para obter financiamento, dada a “necessidade urgente de trazer recursos para a Bolívia”.
Fernando Romero, presidente do Colégio de Economistas de Tarija, comentou que a flexibilização cambial terá “impactos diretos na economia das famílias”, pois “é provável que os preços de produtos importados aumentem”.
No entanto, pode ser “o primeiro passo para reduzir a incerteza e tornar a economia mais competitiva”, se ajudar a reativar exportações e atrair investimentos estrangeiros, explicou à AFP.
A crise se agravou durante o governo de Luis Arce (2020-2025), quando a Bolívia sofreu sua primeira recessão desde 1986.
Após 20 anos de governos de esquerda, Rodrigo Paz assumiu a presidência em novembro prometendo reequilibrar a economia, mas enfrenta resistência às reformas que incluem privatizações e cortes de gastos.
Paz atribui os protestos recentes ao ex-presidente Evo Morales, que está foragido em seu reduto político no Trópico de Cochabamba.
Morales é alvo de uma ordem de prisão por suspeita de tráfico envolvendo menor, caso que ele nega e considera perseguição política.
O Ministério Público acusa Morales de ter se relacionado com uma adolescente de 15 anos com quem teria uma filha, supostamente com consentimento dos pais da menor em troca de benefícios.
No X, Morales criticou a flexibilização cambial, afirmando que “essa desvalorização mascarada transfere o ônus da crise para os trabalhadores”.

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