Economia
Cabotagem brasileira aposta nos biocombustíveis para cortar emissões
O setor de cabotagem no Brasil enfrenta um dos maiores desafios para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, especialmente com as novas regras que deverão entrar em vigor no final da década pela Organização Marítima Internacional (IMO). Essas normas irão impor custos extras para navios que utilizarem combustíveis fósseis, estimulando a aceleração da transição para fontes energéticas mais limpas, sem prejudicar a competitividade frente ao transporte rodoviário.
De acordo com Luiz Fernando Resano, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), o processo de descarbonização é inevitável, porém precisa ser feito com atenção às particularidades do mercado brasileiro para evitar que o aumento nos custos do frete provoque a migração da carga para as estradas.
O transporte rodoviário é o principal concorrente da cabotagem no Brasil, diferente do transporte marítimo internacional, onde o concorrente é outro navio. Portanto, se o transporte aquaviário ficar mais caro, as cargas podem ser desviadas para as rodovias, o que nenhum consumidor deseja só por ser uma opção mais sustentável.
O novo modelo regulatório da IMO terá regras obrigatórias e mecanismos financeiros para penalizar embarcações com maiores emissões, o que poderá aumentar significativamente os custos operacionais para navios que continuarem a usar combustíveis tradicionais, elevando consequentemente o valor dos fretes.
Biocombustíveis oferecem vantagem competitiva
Apesar dos desafios, a descarbonização oferece uma oportunidade estratégica para o Brasil, que possui condições favoráveis para produzir combustíveis renováveis em grande escala. Entre as alternativas mais promissoras estão o etanol e o biodiesel, derivados da cana-de-açúcar, milho e soja, que podem reduzir drasticamente as emissões do transporte marítimo e talvez até gerar créditos no novo sistema regulatório.
Resano destaca que a matéria-prima para produção desses biocombustíveis é abundante no país, o que coloca o Brasil em uma posição estratégica para se tornar fornecedor de combustíveis para a navegação nacional.
Produção nacional fortalece o setor
O Brasil já possui uma cadeia consolidada para produção de etanol e biodiesel, bem como experiência para o uso desses combustíveis em larga escala. O biodiesel pode ser usado em motores marítimos com poucas modificações, e fabricantes estão analisando a viabilidade do uso do etanol para propulsão naval.
Além do avanço tecnológico, é crucial garantir o reconhecimento internacional desses biocombustíveis como soluções sustentáveis para que possam ser contemplados nas faixas de menor emissão previstas pela IMO e evitar penalizações ou até receber incentivos financeiros.
Incentivos públicos são fundamentais
Para que a transição energética da cabotagem seja viável, Abac defende a implementação de políticas públicas que incentivem os embarcadores a optarem pelo modal aquaviário, reconhecido por sua eficiência energética e ambiental.
Resano sugere que créditos de carbono sejam concedidos aos usuários da cabotagem, valorizando quem escolhe esse modal mais sustentável, e que isso possa ampliar a participação da cabotagem na cadeia logística do país, trazendo benefícios como a redução de custos, diminuição dos acidentes rodoviários e menor uso de combustíveis fósseis.
Ele ressalta ainda que o transporte aquaviário é responsável por uma parcela pequena das emissões totais do setor de transportes, o que mostra seu potencial positivo para as metas climáticas brasileiras.
Desafios persistem no setor
Apesar das oportunidades, o setor enfrenta preocupações como o fim da isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante previsto para 2027, o que pode encarecer o transporte em cerca de 8%. Além disso, há escassez de profissionais qualificados na Marinha Mercante, com muitas vagas abertas sem candidatos adequados, levando as empresas a investirem na formação desses profissionais.
Resano conclui que, mesmo com as dificuldades, a cabotagem pode ser um caminho importante para reduzir emissões, diminuir o custo Brasil e melhorar a eficiência logística, desde que haja condições para uma transição justa e equilibrada.

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