Economia
Cartões buscam liderança nos pagamentos por robôs
Demorou algumas décadas para que os cartões gradualmente substituíssem o dinheiro em papel nas carteiras dos consumidores. Nesse percurso, as bandeiras se tornaram uma espécie de “ponte” segura e prática entre o comprador, o banco e o comerciante. Porém, na nova era dos pagamentos digitais, um quarto elemento entrará em cena e promete transformar o modelo de negócios do segmento: os agentes movidos por inteligência artificial.
Na disputa pela vanguarda do comércio autônomo, as operadoras de cartão desejam ser mais do que simples “plásticos no bolso” e trabalham para se firmar como a camada invisível onde as “máquinas” realizarão as transações. No futuro, um assistente de IA irá comparar preços, escolher a melhor opção e finalizar a compra de maneira totalmente independente.
Recentemente, Mastercard, Visa e Elo deram os primeiros passos concretos para atuar nessa nova cadeia de valor. Contudo, executivos do setor consultados pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) reconhecem a incerteza quanto ao prazo para que o modelo autônomo deixe a fase experimental e se torne tão habitual como o Pix.
Eduardo Merighi, vice-presidente de tecnologia da Elo, ressalta em entrevista ao Broadcast que “A autonomia completa – na qual você só percebe a compra quando o produto chega na sua casa – vai levar um tempo. Isso decorre de uma questão cultural, da necessidade de estabelecer confiança e dos próprios desafios de segurança”.
Os obstáculos começam antes da decisão de compra. Após certa resistência inicial ao comércio eletrônico, o varejo conseguiu habituar o consumidor a seguir passos específicos para adquirir produtos online: consultar um buscador, escolher a loja adequada, clicar em “comprar”, autorizar o pagamento e receber o produto em casa. Delegar todo esse processo a um robô requer uma mudança cultural que precisará de tempo.
Historicamente, grandes mudanças na área de adquirência levam cerca de uma década para se consolidar globalmente, lembra o diretor digital da Mastercard, Pablo Fourez. A tarja magnética substituiu definitivamente as máquinas manuais nos anos 80, embora a tecnologia tenha sido criada cerca de dez anos antes. Do chip ao pagamento por aproximação via celular, a adoção seguiu uma dinâmica semelhante.
A era da IA, entretanto, parece acelerar esse processo. ChatGPT, Gemini e Claude mal existiam quatro anos atrás e já modificaram a experiência digital. Para a tecnologia autônoma, a velocidade de expansão deve situar-se entre esses extremos, prevê Pablo Fourez. “As ferramentas estão evoluindo rapidamente, e agora é o momento de investir”, afirma.
Investimentos
As bandeiras buscam garantir sua competitividade em um cenário econômico em transformação. O comércio conduzido por agentes de IA para consumidores (B2C) deverá movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões no mundo até 2030, segundo estudo da consultoria McKinsey & Company. O sucesso do Pix, que impulsionou a digitalização dos pagamentos, posiciona o Brasil como um mercado promissor para essa tecnologia, segundo executivos.
Por isso, as principais bandeiras operando no Brasil têm ampliado investimentos em IA. A Elo, controlada pelo Banco do Brasil, Bradesco e Caixa Econômica Federal, expandiu recentemente para 5 mil clientes um agente de IA em parceria com a agência digital Decolar. A ferramenta realiza toda a jornada de compra de passagens aéreas, da busca até a transação, integrada a outros canais, como WhatsApp. Apenas na finalização o usuário precisa intervir para confirmar.
Visa e Mastercard testaram recentemente no Brasil transações em tempo real realizadas por agentes autônomos. A Visa implementou um programa para certificar emissores e credenciadores para operações feitas por agentes de IA, adaptando sistemas existentes (como APIs de tokenização e autenticação biométrica) para viabilizar essas transações.
Em junho, a Visa anunciou parceria com a OpenAI para lançar o comércio autonômo inicialmente nos EUA. “Ainda não sabemos quando essa solução chegará ao Brasil, mas estamos nos preparando tecnologicamente”, afirma Leandro Garcia, diretor-executivo de pagamentos digitais da Visa.
Já a Mastercard concentra seus esforços no Agent Pay, uma infraestrutura que assegura segurança, autenticação e confiança ao comércio autônomo. Além do foco no consumidor final, a credenciadora estendeu o conceito para automação entre empresas com o Agent Pay For Machines, que permite que agentes de IA realizem pagamentos corporativos automaticamente conforme orçamentos predefinidos. Recentemente, a empresa apresentou uma solução que adapta sites de lojistas para serem navegados por agentes autônomos.

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