Brasil
Facções chegam rápido: conteúdos criminosos alcançam jovens nas redes
O algoritmo do TikTok levou apenas 21 minutos para começar a recomendar a um usuário de 17 anos vídeos com símbolos ligados a grupos criminosos em um experimento realizado pelo GLOBO.
Os conteúdos mostravam músicas, emojis e outros sinais relacionados ao Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Primeiro Comando da Capital (PCC), que especialistas descrevem como parte de uma estratégia que cria identidade e sentimento de pertencimento entre jovens, conhecida como “narcocultura digital.”
Durante o teste, foi criada uma conta simulando um jovem menor de idade, com apenas duas pesquisas feitas: primeiro “baile” e depois, após dois minutos, “baile em SP”. Em ambos os casos, a busca foi finalizada e a navegação voltou para a aba “Para Você”.
Logo depois, apareceu o primeiro vídeo com música relacionada ao CV. Em 25 minutos e cinco segundos, o feed já recomendava cinco vídeos com referências: dois ao CV, dois ao PCC e um ao TCP. O TikTok foi procurado e afirmou que removeu esse conteúdo.
No momento de criar a conta, a plataforma informou que, por ser menor de 18 anos, o usuário precisava ter um responsável para supervisionar o uso. O perfil foi configurado como público, incluindo comentários, reutilização de conteúdo e mensagens.
Esses conteúdos fazem parte do que o sociólogo e professor de história e sociologia Wesley Santana, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, chama de “narcocultura digital”. Eles representam práticas, símbolos e expressões que romantizam ou normalizam o universo do crime organizado.
“Quando as políticas públicas não alcançam todos, a corrupção e a violência evidenciam a necessidade de expressão, que vem por meio de narrativas e discursos das facções, que nascem da desigualdade. Jovens se identificam com esses símbolos, e influenciadores os estimulam, impactando profundamente a construção da identidade dos adolescentes”, explica Santana.
O aumento da exposição acompanha o crescimento do uso das redes sociais entre os jovens. A Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, aponta que cerca de 24,6 milhões de pessoas entre 9 e 17 anos usam a internet, sendo 92% desse grupo. Entre eles, 57% usam o TikTok várias vezes ao dia ou diariamente.
A semiologista, doutora em Letras e professora de linguística da Universidade Federal Fluminense – UFF, Silvia Maria de Sousa, avalia que a repetição desses códigos torna-os comuns e diminui o impacto inicial.
“Nas redes sociais, emojis, expressões, cores e gestos funcionam como sinais de adesão a certos discursos. Quem os usa não apenas comunica informações, mas manifesta pertencimento, afinidade e valores. O adolescente que adota um símbolo está construindo uma identidade e mostrando seu vínculo a um grupo”, destaca Sousa.
A doutora em psicologia social e professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Sibele Aquino, lembra que utilizar símbolos não indica necessariamente ligação ao crime, mas pode refletir um processo comum de identificação da adolescência.
“Parte da identidade é formada pelos grupos com os quais nos identificamos e seus significados. Na juventude, essa construção é essencial, pois define quem somos e a que pertencemos”, afirma Aquino.
Especialistas reforçam que a existência desses elementos nas redes não implica, por si só, em crime. A advogada criminalista Silvana Campos esclarece que a apologia depende de contexto, intenção e efeitos do conteúdo, conforme o artigo 287 do Código Penal:
“O direito penal exige avaliar contexto, intenção e efeito. O limite entre cultura e ilegalidade está na finalidade do material. Exaltação ou incentivo a crimes pode configurar apologia. Já reproduzir fatos, obras artísticas ou documentários geralmente é protegido pela liberdade de expressão e artística.”
Ela acrescenta que influenciadores podem ser responsabilizados se houver indícios de envolvimento com organização criminosa.
O advogado criminalista André de Oliveira Silva alerta que muitos criadores de conteúdo desconhecem as consequências penais da divulgação desses materiais, que podem incluir prisão.
Em nota, o TikTok explicou que os vídeos avaliados foram removidos por violar as Diretrizes da Comunidade, que proíbem material que promova ou apoie organizações criminosas violentas. A moderação usa tecnologia e revisão humana, com mais de 40 mil profissionais dedicados à segurança, inclusive moderadores brasileiros.
A plataforma ainda divulga relatórios trimestrais de moderação em seu Centro de Transparência. No primeiro trimestre de 2026, 99,6% dos vídeos que quebraram regras sobre violência ou ódio foram retirados proativamente, antes de denúncias; 89,8% foram removidos antes de visualizações; 96,2% dos conteúdos denunciados tiveram resposta em até duas horas; e só 0,2% demoraram mais de 24 horas para análise.

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