Centro-Oeste
Feiras do DF: histórias de quem vive desse trabalho
Quando a cidade ainda está acordando, Jadson Carvalho, 34 anos, já está em movimento. Feirante de frutas, ele sai cedo do Gama para a Ceasa, no SIA, onde compra frutas mais baratas para depois vender. Essa rotina diária ajuda a sustentar seus dois filhos, sua casa e a apoiar sua mãe. Assim, ao levar alimentos para outras famílias, também consegue garantir o sustento da sua.
No Dia do Feirante, 25 de agosto, a trajetória de Jadson representa a de milhares de trabalhadores que fazem das feiras locais importantes espaços de comércio e sobrevivência no Distrito Federal. Segundo Valdenir Machado, presidente do Sindicato dos Feirantes do DF, cerca de 30 mil feirantes atuam na capital, beneficiando aproximadamente 75 mil pessoas.
Jadson cresceu nesse universo: sua mãe trabalhava em Feira, e após a aposentadoria dela, ele continuou. São cerca de 15 anos trabalhando diretamente nesse ramo. Ele destaca que a feira fez parte de sua vida desde pequeno, aprendendo com a mãe. “A feira me ensinou tudo. Nasci nesse ambiente, praticamente herdei essa tradição”, afirma.
Um desafio constante da profissão é lidar com a perecibilidade dos produtos: frutas não vendidas se perdem rapidamente, o que gera prejuízo. “É triste, pois a fruta estraga rápido. Se não vender, perde”, lamenta.
Mas Jadson não se vê longe dessa atividade. Como pai solo, ele valoriza não só o dinheiro conseguido, mas também o contato com pessoas, ouvindo histórias e criando oportunidades de trabalho ao administrar várias bancas. “Sinto que nasci para isso. Amo ser feirante”, diz com orgulho.
De pai para filha
Mais adiante, a família Teixeira mostra outra tradição que atravessa gerações. Evandsrro Cezar Teixeira, 55 anos, começou como produtor rural e feirante em 2018, após anos na agricultura. Ele investiu e aprendeu até desenvolver um sistema de hidroponia. Sua família participa da rotina da atividade, com as filhas envolvidos nos cuidados, vendas e administração. Uma delas, Giovanna Aires Teixeira, 22 anos, estudante de Agronomia, decidiu transformar essa experiência em carreira.
Giovanna cresceu no campo, acompanhando o pai desde cedo. A família vendia nas feiras e ela adorava o contato com as pessoas. Aos sábados, ajudava na colheita e limpeza dos produtos, mesmo com os horários puxados da rotina.
Hoje, ela une o conhecimento prático do pai com o aprendizado teórico da faculdade. “Ele traz experiência do campo; eu, a ciência da agronomia. Aprender com ele é algo que a sala de aula não substitui”, destaca.
Ela também sente o peso da responsabilidade de manter o negócio da família, que depende de vários fatores como clima e economia. Apesar dos desafios, sente orgulho e compromisso de preservar os valores que o pai construiu.
Muito antes da venda
Quem compra nas feiras normalmente não vê todo o trabalho por trás. Na propriedade dos Teixeira, o dia começa muito cedo e pode não ter hora certa para terminar, especialmente nos períodos mais intensos, que chegam até a madrugada. Às vezes, a família passa a noite cuidando dos produtos.
Antes da venda, há planejamento, escolha dos insumos, manejo e enfrentamento de imprevistos como falhas em equipamentos ou problemas climáticos. Mesmo assim, o preço recebido pode ser baixo, o que não diminui o esforço. “Independentemente do preço, o trabalho e os custos continuam”, explica Evandsrro.
Atualmente, eles apostam na diversificação, cultivando alface hidropônica junto com tomates para manter a renda e evitar perdas totais caso uma cultura tenha problemas. Evandsrro afirma: “A produção não pode parar”.
Uma tradição que precisa se transformar
Além das propriedades, as feiras também mudam. Evandsrro percebe que o público está envelhecendo e a presença dos jovens diminuiu. Enquanto as redes sociais ajudam a divulgar os produtos, a comodidade de comprar pela internet compete com o hábito de visitar as feiras e escolher pessoalmente.
Ilana Silvério Santos, 26 anos, autônoma, prefere comprar na feira pela qualidade e frescor dos alimentos. “Aqui é mais fresco. No mercado, a gente não sabe há quanto tempo está o produto”, comenta.
Para Valdenir Machado e o sindicato dos feirantes, é importante valorizar a categoria, atualizar as leis e organizar melhor as feiras para garantir direitos e deveres de todos os envolvidos.
Mais de cem anos depois da regulamentação das feiras livres em 25 de agosto de 1914, a conexão direta entre quem vende e quem compra ainda é a essência do trabalho dos feirantes do Distrito Federal. Mesmo enfrentando dificuldades e incertezas, eles seguem se reinventando para manter viva essa tradição.
Para Evandsrro, parte da sobrevivência é preparar as novas gerações. Sem ter feito faculdade, ele se orgulha de ver a filha estudando Agronomia e trazendo conhecimento novo para a prática criada em anos de trabalho. “É preciso lutar e não desistir, mesmo nos momentos difíceis”, ensina o produtor.
Fonte: Com informações Jornal de Brasília


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