Mundo
O SUS é único e pode servir de exemplo para outros países, afirma Tedros Adhanom da OMS
Tedros Adhanom Ghebreyesus, primeiro diretor-geral africano da Organização Mundial da Saúde (OMS), de 61 anos, ainda tem muito a realizar antes de concluir seu mandato em 2025.
Em entrevista ao jornal O Globo, no Rio, ele destacou que suas prioridades incluem avançar na reforma financeira da OMS e finalizar o anexo do Acordo de Pandemias, conhecido como PABs, que visa agilizar o compartilhamento de informações sobre agentes pandêmicos e assegurar a distribuição equitativa de medicamentos e vacinas.
Desde que assumiu o cargo em 2017, Tedros enfrentou desafios significativos, como a pandemia de Covid-19, a maior emergência de saúde deste século, e a saída dos Estados Unidos da OMS no início deste ano, da qual ele acredita que os EUA retornarão.
Ele também tem utilizado sua influência para destacar a importância da ajuda humanitária para populações afetadas por conflitos armados, lembrando que o atual surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) é particularmente difícil de controlar devido à instabilidade da região.
Tedros compartilhou que a questão o afeta pessoalmente, pois cresceu em meio a guerra e convive com transtorno de estresse pós-traumático. “Eu odeio guerras porque sei o que significam e como afetam as pessoas”, afirmou.
Ao final da entrevista, ele mostrou orgulhoso um documento recebido durante sua visita ao Brasil: “Este é meu cartão do SUS!”, disse referindo-se ao presente recebido.
O papel do Brasil na saúde global
Tedros destacou três principais contribuições do Brasil para a saúde mundial. Primeiro, a rede de atenção do SUS é única e um modelo que outros países podem seguir. Segundo, a Fiocruz, com sua produção local de vacinas, pode ajudar a resolver o problema da distribuição desigual de vacinas evidenciado durante a pandemia.
Por fim, o Brasil está liderando as negociações do anexo PABS do Acordo de Pandemias, que é crucial para a prevenção de futuras pandemias. Para ele, envolvimento do Brasil é algo pessoal, pois ele teve experiências positivas com a Fiocruz durante seu mandato como ministro da Saúde na Etiópia em 2006.
A visão sobre o SUS e saúde como direito
Com base em sua experiência, Tedros relata que já falava sobre o SUS antes mesmo do presidente Lula sugerir que ele o apresentasse ao ex-presidente Donald Trump. Ele reforça que o SUS é vital porque reconhece a saúde como direito humano fundamental, não sendo privilégio de poucos.
Desafios no combate à Aids e financiamento
Apesar dos avanços significativos na redução de casos de HIV, que caíram mais de 40% desde 2010, a preocupação persiste quanto à sustentabilidade dos programas devido a cortes de financiamento, principalmente dos Estados Unidos, mas também de outros países.
Esses cortes ameaçam os ganhos obtidos e dificultam o alcance da meta de erradicação da emergência da Aids até 2030.
Populações vulneráveis e conflitos
Tedros ressaltou que os cortes de financiamento afetarão principalmente populações em países com conflitos armados, onde a necessidade humanitária é aguda, como no Sudão, Ucrânia e Gaza.
Crise do Ebola na República Democrática do Congo
A situação na RDC é preocupante, devido à circulação inicial silenciosa do vírus em meio ao conflito, deslocamento de pessoas e fome. O sistema de saúde local é frágil e há necessidade urgente de cessar-fogo para facilitar os esforços de controle. Caso contrário, o vírus pode se espalhar para países vizinhos como o Sudão do Sul.
Ele tranquilizou dizendo que o risco para o mundo é baixo, baseado na história do Ebola desde 1976.
Financiamento e crises humanitárias
Tedros explicou que em emergências rápidas há maior fluxo de doações, mas em crises prolongadas o financiamento diminui, o que prejudica o trabalho da OMS para apoiar os sistemas de saúde em todos os lugares.
Impacto da guerra pessoal
O dirigente compartilhou que seu histórico de infância em meio à guerra o aproxima do sofrimento das crianças em situações de conflito, reforçando seu compromisso com a paz como a melhor solução política para qualquer crise.
Legado da Covid-19 para a OMS
Tedros não vê a Covid-19 em termos de legado, mas como uma oportunidade de aprendizado para melhorar a preparação global, destacando a necessidade de fortalecer a capacidade de produção de medicamentos e vacinas nos países. Ele elogiou o Brasil pela liderança nas negociações do Acordo de Pandemias.
Tarefas finais no cargo
Nos seus últimos meses, ele foca na sustentabilidade financeira da OMS para garantir sua independência, buscando diversificar a base de doadores e aumentar as contribuições dos estados-membros. Além disso, pretende concluir o anexo PABS do acordo de pandemia.
Reversão da saída dos EUA
Tedros acredita que os Estados Unidos retornarão à OMS, ressaltando que a cooperação global é essencial para combater ameaças à saúde, e que a saída dos EUA foi motivada por razões que não favorecem a saúde mundial.

Você precisa estar logado para postar um comentário Login