Economia
Por que os óculos inteligentes têm gerado debates sobre privacidade e limites das inovações
Kylie Jenner, influenciadora e a mais jovem do clã Kardashian, aparece em um vídeo no Instagram em frente ao espelho, maquiando os lábios. Seus mais de 380 milhões de seguidores a veem usando apenas um roupão e óculos escuros. Talvez nem todos notem o acessório no rosto dela com uma luz branca piscando na lateral.
Esse sinal indica que o AI Glasses da Meta, os óculos inteligentes da gigante dona do Facebook, Instagram e WhatsApp e os mais populares do mercado, estão captando imagens.
Os óculos, sejam de grau ou não, com lentes escuras ou transparentes e custando cerca de R$ 4 mil, gravam vídeos, tiram fotos, tocam música e contam com ferramentas de inteligência artificial que, por exemplo, traduzem ao ouvido do usuário o que alguém está falando em outro idioma. Tudo controlado por comando de voz com um simples “Hey, Meta”.
Com tantas funcionalidades, seu uso tem gerado debates entre especialistas e consumidores sobre inovação, privacidade e direito à imagem.
Na sexta-feira (21), foi anunciado que o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e o grupo Coding Rights acionaram o Ministério Público Federal (MPF), a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) contra os óculos da Meta, alegando que eles capturam vídeo, fotos e áudio das pessoas ao redor muitas vezes sem o conhecimento delas. Para essas organizações, isso representa riscos de violência, assédio e violação de direitos.
A questão crucial é se as vantagens dos óculos compensam os riscos de serem fotografados ou gravados discretamente, especialmente para menores e mulheres.
Elas são as principais vítimas de imagens capturadas indevidamente em praias, escolas, boates e outros locais, que podem ser usadas para humilhá-las. No Brasil, já houve casos de prisão por esse motivo.
Segundo o g1, em julho, um médico foi preso suspeito de gravar uma paciente durante um exame ginecológico usando os óculos.
“A misoginia encontra novas formas de usar tecnologias”, afirma Clarice Tavares, diretora do InternetLab, um centro independente de pesquisa em direito, tecnologia e sociedade, destacando que outros grupos como entregadores e pessoas em situação de vulnerabilidade também têm sofrido com essas práticas.
“Essa dinâmica usa inovações para diminuir o outro. E quem é alvo tem pouco controle sobre sua imagem. É mais fácil perceber e impedir gravações feitas por celular.”
Não é à toa que esses óculos têm sido apelidados em inglês de “pervert glasses” (óculos de pervertido). O grupo ativista Everyone Hates Elon espalhou cartazes em Londres com uma montagem do abusador de menores Jeffrey Epstein usando os Meta Glasses, com a frase “Óculos para quem não respeita o consentimento”.
Regras em vários locais
No mundo inteiro, muitos estabelecimentos criaram regras para evitar gravações indesejadas. No Reino Unido, a rede de pubs Wetherspoons proibiu o uso do acessório, assim como a rede de teatros e cinemas ATG Theatres.
A Royal Caribbean, uma das maiores empresas de cruzeiros, proibiu o uso em áreas específicas de seus navios, como cassinos, spas e banheiros coletivos.
Em tese, é possível perceber quando os óculos estão gravando: um LED na lateral de uma das lentes acende automaticamente.
O problema é que muitas pessoas colocam adesivos pretos para cobrir a luz e gravar sem que os outros percebam. Luiza Morando, de 30 anos, que se autointitula “blogueira de óculos” por criar conteúdo sobre lentes e armações, conhece bem essa prática.
Às vezes, ela faz publicações sobre o AI Meta Glass e, por isso, recebeu propostas de venda desses adesivos bloqueadores, vendidos online por preços entre R$ 20 e R$ 90.
“Já recebi mensagens de vendedores oferecendo esse tipo de adesivo”, conta a influenciadora.
Proprietária de uma ótica em Carangola (MG), ela recebeu treinamento do fabricante para discutir privacidade ao vender o produto. O tema preocupa bastante os clientes.
“Além da luz que indica a gravação, é preciso informar as pessoas que estão sendo filmadas”, ressalta. “É uma questão de respeitar o espaço do outro.”
Para a cirurgiã plástica carioca Cristiane Todeschini, de 50 anos, o procedimento é similar: sempre informar a todos sobre qualquer gravação.
“Não é raro ser surpreendida por algum descobrimento anatômico que desejo registrar para mostrar ao paciente”, diz. “Ele é o primeiro a saber, e o material fica sob nossa guarda.”
Em nota, a Meta informou que “se o LED for adulterado, como com bloqueadores, a câmera para de funcionar”.
A companhia também afirma que atualiza constantemente seu sistema para desativar a câmera ao detectar manipulações físicas no LED e que remove conteúdos que violam suas políticas, especialmente aqueles com objetivo de humilhar pessoas.
“As pessoas testarão os limites da tecnologia, e as empresas precisam antecipar maneiras de burlar os sistemas para garantir a segurança do produto”, alerta Clarice Tavares.
Mercado aquecido
A discussão sobre inovação e invasão de privacidade acontece em meio a um mercado aquecido.
A EssilorLuxottica, dona das marcas Ray-Ban e Oakley e parceira da Meta nos AI Glasses, anunciou a venda de sete milhões de unidades no exterior para 2025, mais que o dobro do ano anterior.
A empresa de Mark Zuckerberg disputa espaço com a chinesa Xiaomi e vários modelos genéricos, vendidos em sites como Mercado Livre e Shopee por pouco mais de R$ 100.
A Google promete para o segundo semestre uma novidade: uma parceria com a Samsung para produzir óculos integrados ao sistema de IA Gemini.
Esta é a segunda tentativa da Google nesse segmento. Em 2013, lançou o Google Glass, que não teve sucesso e foi descontinuado.
Naquela época, além das críticas à privacidade, os modelos não eram considerados atraentes para o uso diário.
“A indústria evoluiu muito, e os óculos inteligentes foram totalmente repaginados”, diz o engenheiro da computação André Brito, de Manaus, que investiu no acessório para criar conteúdo tecnológico no Instagram. “Hoje são menores e mais leves.”
Além do design, o tempo foi fundamental para preparar o consumidor, segundo a professora e pesquisadora Izabela Domingues, do Núcleo de Design e Comunicação da UFPE.
“Mais de uma década ajudou as pessoas a se familiarizarem com esses dispositivos que facilitam a vida cotidiana”, afirma.
“O público já está acostumado com a ideia de dispositivos como smartwatches ou assistentes virtuais, que se tornaram extensões do corpo.”


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