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Amazon usou 273,3 milhões de litros de água em 2025 no Brasil

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A disputa pelo domínio na inteligência artificial traz um custo invisível nas planilhas digitais: a demanda por espaço, eletricidade e uma quantidade significativa de água. Enquanto grandes empresas de tecnologia planejam aumentar quatro vezes a capacidade de seus servidores no Brasil nos próximos anos, surgem preocupações regulatórias e ambientais. De um lado, as companhias garantem alta eficiência; de outro, o histórico de apagões e crises hídricas no país alerta especialistas e governos locais sobre o impacto das “fábricas de dados”.

Recentemente, a Amazon Web Services (AWS) decidiu divulgar parte de seus dados ambientais para antecipar críticas. A empresa revelou que, em escala global, retirou quase 9,5 bilhões de litros de água da natureza no ano anterior. No Brasil, o consumo estimado foi de aproximadamente 273 milhões de litros em 2025.

“Nosso protocolo é analisar o fornecimento de água a longo prazo e garantir que não haja riscos. No México, por exemplo, observamos a diminuição dos reservatórios subterrâneos ao longo do tempo, o que não é sustentável. Por isso, optamos pelo resfriamento a ar contínuo naquela região”, explicou Beau Schilz, líder global de recursos hídricos da AWS, em entrevista ao GLOBO.

A estratégia da empresa é evidenciar que seu consumo de água é inferior ao de seus concorrentes diretos. A AWS afirma ter alcançado um índice de 0,12 litro de água gasto por quilowatt-hora (kWh) consumido, valor bem menor que a média do setor, que ultrapassa 0,80 L/kWh.

No entanto, ambientalistas criticam a falta de transparência. Ao contrário de outras companhias que detalham o consumo por unidade, a Amazon divulga seus dados de forma agregada regional ou global, dificultando avaliações locais sobre o impacto em bacias hidrográficas específicas.

A realidade brasileira e o desafio climático

No Brasil, a narrativa sustentável das grandes empresas de tecnologia enfrenta desafios geográficos. Para preservar água, a indústria utiliza o resfriamento a ar. Segundo Schilz, a tecnologia atual da AWS só exige água (num processo de evaporação que funciona como uma “esponja gigante” para dissipar calor) quando a temperatura externa ultrapassa os 29°C. “Isso permite que no Brasil a água seja usada em menos de 5% do ano; nos outros 95%, usamos apenas o ar externo”, ressaltou o executivo.

O dilema nacional é que a matriz energética depende fortemente das chuvas. Quando a temperatura aumenta e o sistema elétrico enfrenta maior pressão pelo uso de ares-condicionados, os data centers recorrem ao resfriamento com água para evitar ligar resfriadores elétricos intensos, que podem elevar o consumo energético em até 35%. Essa prática busca equilibrar o uso da água nos data centers para proteger os reservatórios das hidrelétricas, evitando sobrecargas na rede elétrica.

“Contamos com milhares de sensores que monitoram a temperatura dos servidores e do ar. Assim, ajustamos continuamente para utilizar menos água. Além disso, usar água em períodos limitados reduz o desperdício de energia em chillers tradicionais. Essa estratégia ajuda a minimizar perdas energéticas quando as redes elétricas estão sobrecarregadas”, afirmou Schilz.

Pesquisadores e ativistas ambientais alertam que o país está em situação delicada, especialmente na região Sudeste, onde a capacidade da matriz elétrica está próxima do limite. A crescente demanda dos sistemas de IA generativa consome energia a um ritmo elevado, enquanto a instalação de fontes renováveis como usinas solares e eólicas não acompanha essa velocidade, agravada pela falta de sistemas adequados de armazenamento em baterias.

Preocupações locais e medidas compensatórias

O uso intenso de recursos pelos data centers já gerou reação global, com cidades ao redor do mundo bloqueando novos projetos. No Brasil, o anúncio do projeto “Rio AI City”, liderado pela Elea Data Centers com quase R$ 3 bilhões de investimento, gerou questionamentos sobre o consumo de água em uma cidade com histórico de escassez hídrica. Além disso, o alto consumo energético previsto provocou críticas de vereadores locais, que apontaram falta de consulta sobre o impacto no saneamento e abastecimento.

Schilz defende que essas preocupações nascem de interpretações equivocadas: “O desafio no Brasil é semelhante ao do resto do mundo. Há mal-entendidos quando alguém multiplica o pedido de outorga feito para o dia mais quente por 365 dias, superestimando o real consumo do data center”.

Sobre racionamentos municipais que afetam a população e a agricultura, Schilz explicou que existem planos de contingência e que a AWS mantém constante coordenação com as autoridades locais. “Somos uma infraestrutura crítica e não podemos interromper os servidores, pois abrigamos hospitais e serviços de emergência na nuvem”, reforçou.

Como forma de compensar seu impacto, a Amazon tem investido em ações para devolver água ao meio ambiente. No Brasil, promete recompensar mais de 550 milhões de litros a partir do próximo ano, o dobro do volume consumido. Além disso, Schilz destacou iniciativas que utilizam inteligência artificial para identificar vazamentos nas tubulações da Sabesp em São Paulo e esforços de reflorestamento na Mata Atlântica.

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