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Ameaças, sniper e carros blindados: PF aponta modus operandi de grupo paramilitar de Vorcaro

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Snipers, pessoas armadas com rifles, veículos blindados, telefones registrados no exterior e reuniões em locais isolados, longe de testemunhas. É assim que a Polícia Federal descreve a atuação do grupo chamado “A Turma”, uma organização clandestina de intimidação e vigilância que, segundo as investigações do caso Master, atuava para proteger os interesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e de sua família.

Formado por policiais federais, operadores do jogo do bicho e membros com perfil paramilitar, o grupo é acusado pela PF de ameaçar inimigos, acessar dados sigilosos e realizar diversas atividades ilegais em benefício do empresário.

As informações estão presentes no relatório da PF, divulgado publicamente na terça-feira por decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com os investigadores, a organização era controlada por Vorcaro, juntamente com seu pai Henrique Vorcaro, e administrada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

Blindados e homens armados

Um dos casos registrados pela Polícia Federal menciona uma reunião organizada por Manoel Mendes Rodrigues, apontado como chefe do braço da Turma no Rio de Janeiro e operador do jogo do bicho. Em uma conversa interceptada em fevereiro deste ano, Manoel relata a um interlocutor que Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, e outro homem ficaram assustados ao serem recebidos por pessoas armadas e carros blindados.

Conforme o diálogo, o interlocutor recorda que os visitantes foram recepcionados por indivíduos portando rifles. Manoel afirmou que havia determinado que “nosso pessoal” fizesse a segurança e que todos permanecessem “o mais disfarçados possível”. O interlocutor comentou que a estratégia falhou, e um dos presentes ficou sem fala diante da cena. “Eles disseram que parecia a Rússia do Putin”, mencionou Manoel, referindo-se à estrutura de segurança montada no local.

Ameaça a ex-chef de cozinha

A PF também anexou o depoimento do chef de cozinha Leandro Garcia, que trabalhou na casa de praia de Daniel Vorcaro, em Angra dos Reis. Ele relatou ter sido ameaçado por um grupo de cerca de 7 a 8 pessoas, entre elas Manoel e “Sicário”.

— Ele se apresentou como Manoel, dizendo: ‘vim a mando do seu Daniel e mexo com jogo’ — disse o homem, segundo o relato do cozinheiro.

Leandro afirmou que Manoel foi encarregado de descobrir se ele possuía informações, imagens ou qualquer material relacionado ao banqueiro.

Ele relatou que Manoel afirmou que Vorcaro o havia mandado “levantar tudo” sobre ele. Durante a conversa, o homem indicou o grupo que o acompanhava e fez um aviso velado:

— Ele disse: ‘Se o senhor tiver alguma coisa, a gente não quer voltar aqui para causar problemas’ — relatou Leandro ao reproduzir a conversa com Manoel.

Trocas de mensagens entre Vorcaro e o “Sicário” mostram pedidos para que fossem coletadas informações sobre o chef de cozinha. O banqueiro enviou ao “Sicário” a carteira de identidade e dados pessoais de Leandro e de outro homem, identificado por Vorcaro como o principal alvo. O “Sicário” respondeu que buscou informações e não encontrou nada nos sistemas da PF e do Tribunal de Justiça.

Alguns dias depois, em 1º de junho de 2024, Vorcaro voltou a tratar do assunto com Felipe Mourão após receber um vídeo gravado por Leandro. Segundo a PF, o banqueiro defendeu uma ação rápida e sugeriu que o “Sicário” fosse acompanhado por Fabiano Zettel e policiais. “Vamos ter que agir antes de eu voltar. O ideal é você ir com Fabiano e com a polícia. (…) Não sei nem se é melhor turma polícia ou bicheiro para enfrentar esse vagabundo carioca. Às vezes a polícia não intimida tanto”, escreveu Vorcaro.

Sniper para segurança

Em outro diálogo registrado pela PF, Manoel relata o uso de um sniper para garantir a segurança durante uma reunião ligada aos interesses de Henrique Vorcaro. Ele conta a um interlocutor próximo ao pai do ex-banqueiro que havia rompido contrato com um grupo anterior de segurança e, ao narrar um encontro com o antigo responsável, disse que o homem estava acompanhado por quatro policiais militares. “Eu fui sozinho e coloquei um sniper de longe”, afirmou.

A PF informa que Manoel Mendes Rodrigues lidera no Rio um grupo da “Turma” composto por pelo menos quatro a seis integrantes ainda não identificados. Os investigadores dizem que a estrutura possui armamento pesado, incluindo rifles, veículos blindados e recursos típicos de organizações paramilitares.

Celulares estrangeiros

A PF identificou o uso constante de números estrangeiros e métodos para dificultar o rastreamento das comunicações do grupo. Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, passou a usar um telefone registrado na Colômbia após a terceira fase da Operação Compliance Zero. O policial federal aposentado Sebastião Monteiro Júnior, suposto integrante da “Turma”, usava exclusivamente um número dos Estados Unidos nas conversas com Marilson Roseno.

A PF afirma que a utilização de linhas internacionais, mensagens temporárias, ligações telefônicas e encontros presenciais fazia parte de um padrão adotado pela organização para “não deixar rastros via mensagem”.

Reuniões reservadas

As investigações também identificaram encontros reservados entre membros do grupo. Em março de 2026, Marilson Roseno convidou Sebastião Monteiro para uma conversa pessoal. Imagens de câmeras de segurança revelam que, após receber a ligação, Marilson deixou um grupo de amigos na área de lazer do prédio e seguiu com Sebastião para o pilotis, onde ficaram sozinhos por cerca de uma hora e dez minutos.

Documento falso da Interpol

Mensagens interceptadas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro planejou uma armadilha envolvendo drogas para retaliar o DJ e ex-jogador da NBA Ronald Fred Seikaly. O plano foi iniciado pelo grupo criminoso “Turma”, financiado por Vorcaro para intimidar e vigiar adversários. Rony Seikaly atuou na NBA entre 1988 e 1999 e teve um relacionamento com Martha Graeff, com quem tem uma filha. Naquela época, Graeff mantinha um relacionamento com Vorcaro.

Vorcaro considerou uma armadilha com drogas contra Seikaly, mencionando pressão das forças policiais e milícias. Os membros da “Turma”, utilizando o login de uma servidora do Ministério Público Federal, chegaram a criar um documento falso da Interpol para obter informações sobre Seikaly.

As conversas ocorreram em outubro de 2024, entre Daniel Vorcaro e Felipe Mourão, conhecido também como “Sicário”. Durante os diálogos interceptados, Vorcaro sugeriu produzir um incidente simulado envolvendo drogas e disse que investiria até 10 milhões de reais, afirmando que seria para “ensinar que mexer com filho não é brincadeira”.

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