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Como a desinformação impulsionou a chegada em massa de migrantes a Ceuta
A expressão “A fronteira de Ceuta estava aberta” circulou rapidamente, incitando cerca de 72 mil migrantes a tentarem a travessia para o enclave espanhol a partir do Marrocos no final de julho.
Esse boato teve origem em uma interpretação errônea da legislação e foi amplificado nas redes sociais, segundo especialistas consultados pela AFP.
Na última semana, aproximadamente 72 mil migrantes alcançaram Ceuta, maioria nadando ou andando.
Cerca de 70 mil retornaram ao Marrocos, segundo dados atuais do Ministério do Interior da Espanha.
De acordo com um relatório do pesquisador e analista de segurança Chema Gil, da Universidade de Múrcia, essa onda migratória foi motivada por uma campanha online iniciada no começo do mês que alcançou “11 milhões de impactos”.
As redes sociais tiveram papel crucial para convocar e estimular a movimentação, conforme análise dos especialistas.
Mensagens disseminadas por contas não identificadas e com pouca interação levantaram suspeitas sobre o uso de algoritmos para propagação em massa, afirmou Mohamed Benaissa, presidente do Observatório do Norte dos Direitos Humanos (ONDH).
Uma investigação feita pela empresa de tecnologia Golden Owl concluiu com alta confiança que a chegada em massa foi uma “operação deliberadamente organizada”.
Marcelino Madrigal, especialista em redes e segurança, disse à AFP que havia sinais nas redes sociais indicando esse evento.
Segundo Madrigal, rumores, mensagens e grupos nas plataformas Facebook e WhatsApp deram origem à crise, mas não é possível determinar exatamente quem iniciou tudo.
Interpretação equivocada da lei
Um dos motivos que incentivou a travessia foi uma interpretação incorreta de uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, de 8 de julho, destacou o presidente espanhol Pedro Sánchez, que também culpou as “máfias que traficam seres humanos”.
Uma postagem no Instagram, um dia após a decisão, alegava que o Supremo confirmou que não seria permitida a devolução imediata dos migrantes em alto-mar.
No entanto, essa decisão não indicava que a fronteira estivesse aberta para chegadas marítimas, confirmaram os advogados Antonio Benítez Ostos e Antonio Jesús Pérez, do escritório Administrativando.
A legislação específica impede a rejeição na fronteira para quem é interceptado em alto-mar por não ultrapassar um elemento de contenção, com outro procedimento previsto na Lei de Estrangeiros.
A advogada especialista em Direitos Humanos, Laura María Medina Ferreras, enfatiza que as garantias mínimas devem ser sempre respeitadas nesses casos.
Após o episódio, a Espanha instalou barreiras flutuantes na fronteira com o Marrocos, o que pode permitir a rejeição na fronteira se consideradas elementos de contenção, de acordo com Benítez e Pérez.
Ainda há risco de repetição
Madrigal alertou que a crise ainda não terminou, citando novas postagens convocando novas chegadas em massa em agosto.
Ele responsabilizou as plataformas digitais por não desmentirem os conteúdos potencialmente incentivadores da travessia na época.
Segundo o especialista, é muito provável que eventos semelhantes ocorram novamente, inclusive em outras regiões do mundo.
Essa não é a primeira vez que as redes sociais estimulam a migração irregular do Marrocos para Ceuta: em 2024, mais de 150 pessoas foram processadas nesse contexto pelo país norte-africano.

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