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Entregadores ganham peso como grupo eleitoral no Brasil
De bermuda e chinelos, João Paulo Teixeira desliza habilidosamente entre os carros para entregar refeições no coração do Rio de Janeiro.
Com 20 anos, ele representa a crescente categoria de trabalhadores das entregas, que tem aumentado sua mobilização por direitos e se tornado foco de disputa na corrida presidencial de outubro.
“A entrega é como uma dependência, você não consegue parar. É minha principal fonte de renda. Mesmo nos dias de folga, fico pensando no que poderia estar fazendo”, relata à AFP.
Ele trabalha intensamente: mais de dez horas diárias, seis dias por semana, fazendo o máximo de entregas possível para ganhar entre 700 a 1.000 reais por semana.
Esse valor ultrapassa confortavelmente o salário mínimo mensal de 1.600 reais, em um cenário de baixo desemprego, porém com a maioria da força de trabalho na informalidade.
Em abril, Teixeira participou de um protesto contra um Projeto de Lei Complementar que tentava regulamentar o trabalho dos entregadores e motoristas de aplicativos.
Os manifestantes consideravam o valor mínimo por corrida previsto pela legislação muito baixo.
Milhares desses profissionais foram às ruas das grandes cidades, forçando os legisladores a adiar a análise do projeto indefinidamente.
Um grupo em disputa
Segundo dados recentes do IBGE, havia 274 mil entregadores por aplicativos no Brasil em 2024, mas especialistas e representantes do setor afirmam que esse número é bem maior.
“Essa categoria cresceu muito durante a pandemia e é alvo de disputa eleitoral, não só pelo número, mas pela capacidade de mobilização”, comenta Nicolas Souza Santos, cofundador da Aliança Nacional dos Entregadores de Aplicativos (ANEA).
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem apoiado a elevação da renda mínima por trajeto para esses profissionais e, no mês passado, anunciou medidas como créditos facilitados para compra de motos.
Diversas propostas legislativas, tanto de direita quanto de esquerda, que buscam melhorar as condições de trabalho desses profissionais estão em análise.
Indecisão e descrença
O presidente Lula, de 80 anos, tentará um quarto mandato em outubro, enfrentando uma provável disputa apertada com o senador Flávio Bolsonaro, de 45 anos, filho do ex-presidente.
Para Letícia Birchal Domingues, professora de Ciência Política na UFMG, há uma forte polarização à direita e à esquerda no país, mas os entregadores compõem uma categoria “ambígua” e em disputa, cuja preferência pode influenciar o voto.
Paulo Almeida, entregador de 36 anos, disse ter votado em Jair Bolsonaro anteriormente, mas está incerto sobre o voto no filho dele. Ele era instrutor de autoescola e começou a fazer entregas em bicicleta para ter mais tempo livre e ganhar um pouco mais.
Guilherme Matias, 23 anos, que ganha o dobro do salário que tinha como garçom, participou dos protestos de abril, mas se declara desiludido com políticos: “Eles nunca vão nos representar, só pensam neles”, afirma.
Segundo Ricardo Festi, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília, a esquerda, tradicionalmente inserida no setor formal e sindicalizado, sempre teve dificuldade de alcançar o setor mais precarizado.
No Congresso, a deputada federal de esquerda Talíria Petrone (PSOL-RJ) apresentou projeto de lei que visa garantir vale-alimentação para entregadores, que frequentemente levam comida para sua casa mesmo com fome.
Do lado conservador, o deputado federal Daniel Agrobom (PSD-GO) criou uma frente parlamentar em defesa dos entregadores e motoristas de aplicativo.
“Eles buscam autonomia e liberdade. Nossa luta é por isso”, disse, apoiando uma regulamentação que assegure remuneração justa e condições seguras de trabalho para esses profissionais.


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