Centro-Oeste
Trabalho sob o sol forte
Claudiane trabalha há 15 anos vendendo roupas e meias perto da Rodoviária do Plano Piloto. Este agosto, o calor intenso prejudicou suas vendas e dificultou ainda mais seu trabalho ao ar livre. Aos 45 anos, ela começa o dia cedo, arruma suas mercadorias e se instala com o marido em frente ao Conjunto Nacional, passando horas sob o sol em um banco de plástico.
A cada hora, o sol fica mais quente e o esforço continua. Para quem vende na rua, não há pausa para buscar sombra e se refrescar. É justamente na hora em que o corpo mais precisa de proteção que o trabalho não pode parar.
Claudiane é reservada, mas a descrição de sua rotina mostra um período de calor nunca antes enfrentado em seus anos como ambulante. O cansaço e o mal-estar aumentaram, chegando a causar dores físicas no fim do dia.
Ela chega cedo para aproveitar o movimento, organizando as mercadorias para atrair compradores. No entanto, o calor intenso faz com que as pessoas andem depressa e evitem ficar na rua, reduzindo suas vendas. Há um conflito entre buscar sombra e perder clientes ou ficar exposta ao sol para não perder oportunidades.
“Não posso sair do ponto porque perco vendas. Uso um guarda-sol para me proteger e um banco para descansar, mas o horário de maior movimento é o mais quente”, relata.
O guarda-sol oferece alguma proteção, mas não diminui o calor do ambiente. Após horas ali, a sensação se intensifica.
Para melhorar, Claudiane gostaria de um local simples, coberto e com movimento, onde os ambulantes pudessem trabalhar protegidos e receber clientes ao mesmo tempo.
O desafio de trabalhar no calor
Essa situação não é única. Em Ceilândia, perto do metrô, Miguel Figueiredo, 45 anos, vende acessórios para celulares há 14 anos. Ele também enfrenta dificuldades com o calor, que afeta não só o corpo como o humor e a disposição.
Ele usa guarda-sol e se hidrata para tentar amenizar o calor, mas encontrar sombra nem sempre é fácil, pois o ponto de venda deve ter movimento e respeitar as regras locais.
Miguel acredita que uma feira seria ideal, desde que seja um local conhecido e com circulação de pessoas, para garantir as vendas.
Assim como Claudiane, ele precisa equilibrar a necessidade de proteção com a presença de clientes. Os locais com maior movimento são os menos confortáveis para ficar sob o sol por horas.
O calor desgasta o corpo e o bolso, pois trabalhos ao ar livre acumulam cansaço, sede e desconforto, além do risco de perder vendas devido à exposição excessiva ao sol.
Temperaturas extremas e saúde
Em Brasília, temperaturas elevadas, baixa umidade e exposição prolongada ao sol têm dificultado ainda mais a rotina dos trabalhadores ao ar livre. No dia 10 de agosto, foi registrada a temperatura mais alta do ano, 36,1°C, com umidade relativa do ar em torno de 13%.
A previsão para setembro indica temperaturas ainda acima do normal, com baixa umidade.
De acordo com o médico Lucas Albanaz, o corpo reage ao calor intenso aumentando o fluxo sanguíneo e produzindo suor para tentar se resfriar. Isso pode levar à desidratação, fazendo o coração trabalhar mais e causando sintomas como cansaço, tontura, palpitações, dores de cabeça e câimbras.
Para amenizar os efeitos do calor, é importante beber água frequentemente, fazer pausas em locais frescos, evitar exposição em horários quentes e vestir roupas leves e ventiladas.
Adaptação das cidades
A cidade também precisa se adaptar para lidar com o aumento das temperaturas. O ambientalista Raphael Sebba desenvolve um projeto de distribuição gratuita de protetor solar para trabalhadores expostos ao sol, como garis, ambulantes, entregadores e profissionais da construção civil.
Segundo Raphael, o protetor solar é uma forma essencial de proteção nesses contextos, e não apenas um produto de cuidado pessoal.
Ele destaca a necessidade de sombra, arborização e pontos de apoio nas cidades para proteger quem trabalha ao ar livre e enfrentar melhor as ondas de calor.
Essa ideia está alinhada com o desejo de Claudiane e Miguel de ter estruturas que ofereçam alívio do calor, e que façam parte do próprio local de trabalho.
Enquanto isso, Claudiane continuará seu trabalho perto da Rodoviária do Plano Piloto e Miguel na Ceilândia, esperando que o movimento siga e que alguém pare para comprar, mesmo com o sol forte marcando a jornada.
Com informações Jornal de Brasília

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