Economia
Casas Bahia pede empréstimo de R$ 1 bi e aposta em vendas online
Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial no domingo à noite, enfrentando dívidas que somam R$ 17,3 bilhões e contabilizando 28 mil credores, em uma situação que foi definida pela empresa como “a pior crise desde sua criação”, há 74 anos.
A varejista divulgou com atraso, no final de semana, um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, valor 18 vezes maior que o registrado no mesmo período do ano anterior. Durante o pregão de ontem, as ações da companhia foram suspensas várias vezes devido à forte oscilação e fecharam em queda de 33%, a R$ 0,44.
A empresa fechou 298 lojas, correspondendo a 30% do total, além de demitir quase 3 mil colaboradores, cerca de 10% do quadro de funcionários. Conforme o CEO Renato Franklin, as unidades fechadas “estavam com desempenho muito abaixo da média”, referindo-se à rentabilidade.
Até o momento, não há previsão de novos fechamentos ou cortes, mas caso a situação econômica do país se complique no próximo ano, a companhia terá que rever seu planejamento e ajustar o tamanho da operação.
Renato Franklin destacou que a piora das condições econômicas do país é a principal causa da crise enfrentada pela empresa. Especialistas observam que o cenário macroeconômico desfavorável, caracterizado por alta na Taxa Selic e endividamento das famílias, é um fator determinante para a crise no varejo, mas também apontam questões internas de governança como contribuintes.
Eduardo Yamashita, sócio-diretor da consultoria Gouvêa Inteligência, comenta: “Apesar da melhora na renda e do desemprego baixo, as vendas não crescem, e os juros altos complicam. Empresas muito endividadas ou mal geridas, como Casas Bahia, enfrentam maiores desafios, pois não têm reservas para resistir”.
Reposição de estoques e financiamento emergencial
Um dos motivos que levaram ao pedido de recuperação foi a antecipação de vencimentos de fornecedores como Hisense e Lenovo, que devem receber R$ 134 milhões e R$ 137 milhões, respectivamente.
O plano para superar a crise inclui ajustes nos canais digitais, focando em vendas mais rentáveis, e a negociação de um empréstimo DIP (financiamento especial para empresas em recuperação judicial) de cerca de R$ 1 bilhão, destinado a cobrir custos operacionais e manter a empresa funcionando.
Fontes indicam que as negociações com instituições financeiras estão em andamento para esse crédito.
Nos resultados do segundo trimestre, a empresa explicou que teve dificuldades para repor estoques, com os dias de estoque diminuindo de 95 para 75 entre março e junho.
Nova estratégia digital
Casas Bahia tem forte presença física, mas também atua online com site próprio, aplicativo e em marketplaces parceiros como Mercado Livre, Shopee e Amazon.
Renato Franklin disse que o grupo optou por reduzir operações digitais caras e priorizar marketplaces parceiros, que podem ter comissões menores que os custos para gerar tráfego próprio, sem detalhar a estratégia.
Credores e dívidas
O pedido de recuperação envolve 28 mil credores, incluindo bancos, fundos de investimento e grandes fornecedores. A maior parte da dívida, R$ 16,4 bilhões, é sem garantia, referente a débitos com fornecedores. Dívidas trabalhistas totalizam R$ 754,5 milhões.
Destaques entre credores são a Zurich Minas Brasil Seguros, com R$ 1,97 bilhão a receber, e o fundo IBCB-AF01, com R$ 1 bilhão em aberto. Fornecedores importantes incluem Samsung (R$ 937,6 milhões), Electrolux (R$ 700 milhões), Whirlpool (R$ 635,9 milhões), LG (R$ 623,7 milhões) e Motorola (R$ 619 milhões).
Entre os bancos, Bradesco detém R$ 655,6 milhões a receber, incluindo o Digio, Banco do Brasil tem R$ 598,1 milhões e Itaú R$ 208,3 milhões.
Dependência do crediário
A empresa atribui os impactos da alta da Taxa Selic ao seu modelo, que depende diretamente do crediário, tradicional desde a década de 1950 e responsável por 15,9% das vendas. No segundo trimestre, a carteira de crediário era de R$ 6,3 bilhões.
A alta dos juros aumentou o custo de manter estoques e os financiamentos com fornecedores, agravando a situação da empresa.
Contexto da crise
Casas Bahia atribui a crise aos efeitos da inflação, que penaliza a renda das famílias mais pobres, e à competição crescente de plataformas internacionais como Amazon e Mercado Livre.
Em 2024, a empresa já havia recorrido a recuperação extrajudicial por dívidas de R$ 4,1 bilhões.
O advogado empresarial Eduardo Vieira, do escritório Vieira e Serra Advogados, explica que, diante do aumento do endividamento, a recuperação judicial é necessária para abranger mais credores e garantir maior proteção legal.
O pedido inclui outras nove empresas do grupo, como a Bartira, maior fabricante brasileira de móveis.
Com a aprovação da recuperação judicial, as cobranças são suspensas por 180 dias, podendo ser prorrogadas por igual período.
Renato Franklin destacou que a recuperação judicial é uma ferramenta para manter as operações em funcionamento, permitindo uma negociação organizada com todos os credores.


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