Conecte Conosco

Economia

Negociar com os EUA: Empresários adotam reciprocidade

Publicado

em

Empresários brasileiros afetados pelas tarifas impostas por Donald Trump consideram que a abertura do processo de reciprocidade pelo governo Lula funciona como uma ferramenta para incentivar a Casa Branca a negociar sobre as tarifas.

Se o processo for conduzido com cautela, conforme garantido pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, o empresariado não enxerga motivos para grandes preocupações no momento, pois a abertura do processo não implica necessariamente na adoção de medidas retaliatórias.

O problema, segundo um interlocutor, é que Donald Trump permanece imprevisível e pode voltar sua atenção para o Brasil a qualquer momento.

De qualquer forma, o setor privado avalia que nenhuma iniciativa para reverter as tarifas terá sucesso antes das eleições presidenciais no Brasil e das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

O processo de reciprocidade foi oficialmente iniciado recentemente, após o governo Trump anunciar uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras para os EUA. Além disso, o Brasil foi incluído entre os países sancionados sob alegações americanas de falhas no bloqueio de produtos importados produzidos com trabalho forçado, com uma tarifa de 12,5%, também sujeita a algumas exceções.

Existem tarifas específicas para setores como aço e automotivo. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), 47,3% da pauta exportadora brasileira para os EUA está sujeita a alguma tarifa imposta pelo governo Trump.

Nesta segunda-feira, o ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, reuniu-se com representantes da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) para ouvir o setor privado sobre o tema.

O governo pretende manter essa interlocução durante todo o processo de reciprocidade, mas a participação formal do setor privado só ocorrerá posteriormente, caso seja criado um grupo de trabalho para sugerir propostas de retaliação.

A secretaria-executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex), vinculada ao MDIC, tem até 60 dias para apresentar um relatório de aderência do pleito à lei de reciprocidade. Em seguida, o Comitê Executivo da Camex (Gecex) terá igual período para deliberar sobre o enquadramento.

Somente após esses passos poderá ser criado o grupo de trabalho que sugerirá as medidas, que ainda deverão passar por consulta pública antes da decisão final do Gecex e do conselho estratégico da Camex.

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), comentou que a reciprocidade faz parte da legislação brasileira, aprovada por unanimidade no Congresso. Ele destacou que o processo é longo e ainda passará por consultas ao setor privado, não significando necessariamente retaliações amplas e irrestritas.

“Pode gerar retaliação mais direcionada, mas faz parte do jogo, foi aprovado pelo Congresso e não há motivos para surpresas neste momento. Devemos continuar negociando em todas as frentes”, disse Fernando Pimentel, que ainda não foi formalmente consultado pelo governo sobre o tema e acredita que não haverá solução antes das eleições.

Outro representante do setor privado reforça que a abertura do processo é um avanço na mesma ferramenta de negociação que já existia devido à lei aprovada no ano anterior.

Embora os EUA tenham aberto investigações comerciais contra o Brasil e outros países, diferentemente de Trump, o governo Lula não pode taxar as exportações americanas sem causar prejuízos à economia local.

José Velloso, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou que o setor não está preocupado com a aplicação da Lei da Reciprocidade porque não acredita que a medida será efetivamente adotada.

Ele ressaltou que o processo levaria, no mínimo, de 90 a 120 dias para resultar em alguma retaliação concreta e que a entidade ainda não foi consultada pelo governo.

“Não estamos preocupados porque não acreditamos que isso vá se concretizar. O governo deve continuar insistindo na negociação. Nem o início do processo, nem os recursos à Organização Mundial do Comércio (OMC) terão resultado prático”, concluiu José Velloso.

Integrantes do Itamaraty justificam que o governo brasileiro não poderia ignorar a lei aprovada pelo Congresso como instrumento de defesa e não abrir o processo só porque o outro lado é mais forte, mas destacam que nada deverá acontecer até o resultado das eleições.

Por outro lado, Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), critica a iniciativa afirmando que ela não protege a soberania do país, como declarado pelo presidente Lula, e considerou a medida prejudicial a milhares de empregos.

“O governo brasileiro está aumentando sua aposta. Isso não é negociar, fere os princípios da boa diplomacia, aguçando uma pauta eleitoreira. Isso não defende a soberania brasileira, mas prejudica o emprego de milhares de brasileiros. Os EUA são a maior economia do mundo e um parceiro histórico do Brasil há mais de 200 anos. Quem vai perder nesse confronto?”, disse Paulo Skaf em nota.

Clique aqui para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe um Comentário

Copyright © 2026 - Todos os Direitos Reservados