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Nepal pede justiça climática após desastre natural

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Ao ver a avalanche de gelo e detritos deslizar rapidamente pelo vale e destruir sua aldeia na última semana, Pemba Chhring Tamang percebeu imediatamente que sua vida nas encostas do Himalaia, no Nepal, perto da fronteira com a China, mudaria para sempre.

“Já tínhamos ouvido falar sobre as mudanças climáticas nas notícias e enfrentado enchentes, mas nunca algo assim”, confessa o homem de 57 anos, que foi resgatado na região severamente afetada de Rasuwa. “Tudo foi destruído: nossas casas e nossa aldeia”.

O desastre, causado pelo colapso parcial de uma geleira nas montanhas, deixou mais de 1.270 mortos e 4.750 desaparecidos, conforme os dados mais recentes das autoridades nepalesas e chinesas.

Mesmo passados oito dias do ocorrido, as equipes de resgate continuam buscando corpos e sobreviventes, enquanto trabalham para suprir as necessidades básicas de dezenas de milhares de atingidos.

“O que o Nepal fez para merecer isso?”, questiona Tashi Lhazom, ativista ambiental. As causas precisas do colapso ainda precisam ser estudadas, mas o derretimento acelerado das geleiras, resultado direto das mudanças climáticas, aumenta o risco desse tipo de tragédia.

Isso representa uma injustiça para muitos, já que o Nepal é um dos países com menor emissão de gases do efeito estufa no mundo.

“Estamos sofrendo as consequências de um crime que não cometemos”, afirma Lhazom.

Consequências em cadeia

Para as comunidades do Himalaia e do Hindu Kush, que possuem a maior reserva de gelo do planeta depois das regiões polares, o aumento das temperaturas tem efeitos devastadores.

Nos últimos 20 anos, o ritmo de derretimento das geleiras dobrou, conforme dois estudos divulgados em março. “Uma mudança de apenas um grau na temperatura pode causar milhares de mortes”, explica Lhazom.

Saswata Sanyal, do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), em Katmandu, destaca que o aquecimento global provoca múltiplos efeitos perigosos nas altas montanhas, resultando em eventos em série como o ocorrido no fim de agosto.

Tenzing Chogyal Sherpa, glaciologista nepalês, aponta os países com maiores emissões como responsáveis e pede que assumam suas obrigações.

O governo do Nepal intensificou os pedidos à comunidade internacional por auxílio, enfatizando a necessidade urgente de combater as causas das mudanças climáticas.

O primeiro-ministro Balendra Shah afirmou que o Nepal deve mostrar de forma clara as tragédias vividas ao mundo. O ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, chamou o desastre de um sério alerta.

Reivindicação por justiça climática

Segundo Khanal, o apoio internacional deve ir além da ajuda humanitária e ser tratado também sob a ótica da justiça climática.

Ele defende a implantação de sistemas eficazes de alerta precoce e o aprimoramento da troca de informações.

Destaca que muitos estudos confirmam que a mudança do clima intensifica inundações, deslizamentos e outros fenômenos naturais extremos, e que esses eventos não devem diminuir.

A pesquisadora Dhondup Wangmo, do Tibet Policy Institute, observa que tais desastres provavelmente ocorrerão com mais frequência e maior intensidade no futuro.

Além do Nepal, toda a região está em risco. Na Índia, Rushati Das, da ONG Climate Action Network South Asia (CANSA), alerta que os impactos das mudanças climáticas estão chegando ao país.

Segundo Das, os desastres nas montanhas afetam extensamente as bacias hidrográficas, os ecossistemas e os modos de vida em toda a Ásia do Sul.

No acampamento temporário, Pemba Chhring Tamang preocupa-se com o presente e o que vem pela frente, já que sua aldeia foi totalmente destruída. “Nascer aqui significa tudo para nós. E agora, o que faremos?”

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